Poderia um general desertor liderar o país depois de Assad?

Cenário: Deborah Amos / Slate

O Estado de S.Paulo

03 de agosto de 2012 | 03h01

Comboios de forças do governo montaram um cerco a Alepo e jatos e helicópteros estão castigando os bairros controlados pelos rebeldes. "Alepo será a última batalha travada pelo Exército sírio com o objetivo de esmagar os terroristas", anunciou o jornal Al-Watan, pró-governo. Os rebeldes também estão confiantes. A batalha por Alepo está tomando a forma de um momento decisivo na guerra civil da Síria.

No entanto, alguns dos mais radicais golpes sofridos por Assad não vêm do campo de batalha. Nos últimos meses, os mais elevados círculos políticos, diplomáticos e militares de Assad sofreram a deserção de um número considerável de membros. A mais significativa é a do general Manaf Tlas, o mais importante desertor do Exército até o momento. O general sunita tem elos com o establishment alauita e com a elite dos militares.

Sendo uma figura tão importante, pode parecer que Tlas tenha esperado demais para abandonar o governo - ele desertou em 6 de junho -, mas, talvez, tenha escolhido o momento perfeito. Governos árabes e ocidentais têm pressa em preparar uma estratégia de transição para a Síria pós-Assad. Segundo o Wall Street Journal, representantes do governo americano estariam negociando com governos do Oriente Médio para instalar Tlas no "centro de uma transição política".

"Se ele for empurrado por grandes potências desesperadas, a ideia não vai dar certo", diz Salman Shaikh, diretor do Brookings Doha Center. "Eles estão tentando de tudo. Escolheram o homem errado, alguém com um currículo e uma história bastante questionáveis."

De fato, a mesma história e as mesmas conexões que dão a Tlas certa influência nos níveis mais elevados do governo Assad devem também reduzir seu apelo entre as forças rebeldes que ele teria de unificar. A família Tlas guarda laços antigos e de parentesco com a família Assad. O pai dele, Mustafa Tlas, ex-ministro da Defesa, fazia parte da temida "velha-guarda" que serviu ao clã Assad por décadas, ajudando a organizar uma transição de poder tranquila quando Bashar herdou a presidência após a morte do pai, em 2000.

Algumas partes do currículo político do general, porém, fazem dele uma figura unificadora de maior potencial. Ele é sunita - como mais de 70% do país - e tem elos com o Ocidente, principalmente com a França. Sua irmã, Nahred Ojjeh, é uma rica socialite parisiense, casada com um empresário saudita com contatos no Golfo. Poucos duvidam que Tlas seja a escolha saudita para um papel de destaque num futuro Estado sírio.

Tlas ofereceu-se para ser uma importante figura de transição. Ele pode ter um futuro importante. "Todos os pronunciamentos que fez desde a deserção foram cuidadosamente calculados", diz o professor sírio Amr Azm, que ensina história do Oriente Médio na Universidade Shawnee, em Ohio. Seus pronunciamentos refletem a esperança de muitas capitais ocidentais, mas a retórica de Tlas e seu currículo político não serão de grande valia se ele não for aceito pelos comandantes rebeldes de toda a Síria.

O destaque cada vez maior dado a Tlas representa a esperança de que haja alguém capaz de se comunicar com ambos os lados da divisão sectária, defendendo uma reconciliação plural. Mas, enquanto segue ardendo a guerra civil síria, pode se tornar cada vez mais difícil que tal divisão seja superada por um sírio. / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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