Poderio americano é o precursor de sua influência global

Análise: Alexander Benard

O Estado de S.Paulo

06 de janeiro de 2012 | 03h03

Pressionado internamente, com a oposição iraquiana à presença militar americana e o fracasso das negociações entre os governos dos EUA e do Iraque, o governo de Barack Obama retirou as forças do Iraque e, em breve, terá de encarar uma decisão semelhante no Afeganistão.

A Ásia Central é uma região de enorme importância para os EUA. Ela representa o ponto nevrálgico onde se entrecruzam relevantes poderes rivais emergentes, como China, Rússia e Índia - e está próxima de ameaças como Paquistão e Irã. A região tem também significativas reservas de petróleo e gás, além de grandes quantidades de lítio, cobre, terras-raras, ouro e muitos outros recursos naturais cruciais para o comércio global.

Entretanto, na maior parte da Ásia Central a presença americana é muito reduzida. São poucas as companhias que ali operam, em geral porque os governos russo e chinês usaram com sucesso ameaças - explícitas e implícitas - a fim de impedir que estas repúblicas abram as portas às empresas ocidentais.

No Oriente Médio, os EUA mantêm tropas e relações de segurança com vários países (Catar, Bahrein, Jordânia e Emirados Árabes, entre outros) e portanto podem absorver a saída do Iraque sem sofrer um golpe estratégico para seus interesses regionais. Na Ásia Central, a influência americana é muito pequena. Os EUA não têm mais a base aérea no Usbequistão e mantêm apenas algumas centenas de soldados numa base aérea no Quirguistão.

Desse modo, sua única base é o Afeganistão - um participante cheio de boa vontade - que altera a dinâmica do poder na região. Os EUA certamente conseguem informações valiosas e benefícios no combate ao terrorismo pelo fato de terem tropas estacionadas em um país que faz fronteira com o Irã, o Paquistão e a China. Entretanto, o mais importante é que a presença americana no Afeganistão indica que os EUA têm intenções sérias a respeito da Ásia Central e querem atuar nesta parte do mundo no futuro previsível.

A presença americana no Afeganistão quebra o duopólio China-Rússia porque representa um poder alternativo capaz de exercer forte influência na região. Isso encoraja países vizinhos, dando-lhes a confiança de que necessitam para fazer frente às ameaças externas. Uma presença de aproximadamente 20 mil a 30 mil soldados americanos - número semelhante ao dos soldados que estão na Coreia do Sul ou no Japão - seria suficiente para atingir esses objetivos.

Um fato ilustra o peso da presença dos soldados americanos no Afeganistão: durante toda a década de 90, a Rússia insistiu em manter suas tropas guardando a fronteira do Tajiquistão com o Afeganistão, dizendo aos tajiques categoricamente que não confiava neles para guardar esta fronteira instável.

O Tajiquistão não teve outra escolha senão aceitar. Mas depois da invasão americana no Afeganistão, em 2001, os tajiques avisaram os russos de que a festa tinha acabado. Os guardas de fronteira tinham de ir embora. Com os EUA do seu lado, os tajiques sentiram-se fortalecidos. E os russos foram obrigados a retirar as suas tropas. Parecia o amanhecer de uma nova era.

Alguns meses atrás, a Rússia informou o Tajiquistão de que os guardas de fronteira voltariam, e até o momento os tajiques não deram nenhuma indicação de que pretendem iniciar um conflito. Seu poder desapareceu porque agora, em toda a Ásia Central, há uma crescente sensação de que os EUA se preparam para ir embora. Realinhamentos deste tipo estão ocorrendo em outros países da região.

A secretária de Estado dos EUA, Hillary Rodham Clinton, sabe que há muita coisa em jogo para os americanos. No mês passado, ela visitou várias repúblicas da Ásia Central para discutir a questão do compromisso americano na região.

Sua visita deu-se ao mesmo tempo em que pronunciava seu importante discurso sobre a política econômica, no qual anunciava que os EUA se tornarão mais agressivos na defesa dos seus interesses econômicos e se esforçarão para enfrentar as estatais chinesas, que estão conseguindo criar pontos de estrangulamento no comércio de recursos naturais estrategicamente vitais, em todo o mundo.

O que Hillary não falou em seu discurso, e não mencionou em sua visita à Ásia Central, foi que, em algumas regiões, a projeção do poderio militar americano é um precursor necessário da aplicação da política econômica e da influência política em geral.

Em nenhum outro lugar isso é mais válido do que na Ásia Central. Sem a presença americana, a região, com sua privilegiada localização estratégica e seus importantes recursos naturais, estará praticamente fechada aos Estados Unidos. A Ásia Central não quer isto, e tampouco os Estados Unidos. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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