Johnny Hanson/Houston Chronicle via AP
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Poderosa associação pró-armas nos EUA pede falência para fugir da Justiça

NRA e uma de suas afiliadas abriram os chamados processos do 'Capítulo 11' em tribunal do Texas para garantir seu futuro 'livre do ambiente político tóxico de Nova York'

Redação, O Estado de S.Paulo

15 de janeiro de 2021 | 23h38

NOVA YORK - A poderosa associação pró-armas dos Estados Unidos, a Associação Nacional do Rifle (NRA, na sigla em inglês) anunciou nesta sexta-feira, 15, que entrou com pedido de falência para congelar os procedimentos legais no Estado de Nova York.

A NRA e uma de suas afiliadas abriram os chamados processos do Capítulo 11"no Tribunal de Falências do Texas para garantir seu futuro "livre do ambiente político tóxico de Nova York", escreveu seu influente chefe Wayne LaPierre em uma carta aos colegas membros.

O Estado de Nova York havia entrado com uma queixa em agosto contra a NRA, o próprio LaPierre e três outros líderes, acusados de terem usado as contribuições de seus membros como "seu próprio cofre".

À época, a NRA denunciou a demanda como "um ataque sem base" legal e "premeditado" contra a organização e as "liberdades da Segunda Emenda (garante o direito de portar armas)".

"É uma tentativa clara de marcar pontos políticos e atacar a voz principal que se opõe à agenda de esquerda. Esta é uma tomada do poder por um oportunista político, um movimento desesperado que faz parte de uma vingança política nojenta", afirmou a associação, em um comunicado. 

A procuradora-geral de Nova York, Letitia James, uma democrata, negou qualquer motivação política, embora reconhecesse que a denúncia poderia levar à dissolução da NRA.

“A situação financeira declarada pela NRA foi finalmente acompanhada por seu estatuto moral: falência”, comentou James após o anúncio do plano de reestruturação. “Não permitiremos que a NRA use essa ou qualquer outra tática para escapar de suas responsabilidades”, acrescentou.

Durante décadas, o lobby de armas defendeu o ponto de vista de milhões de proprietários de armas nos Estados Unidos, opondo-se firmemente a qualquer regulamentação desse mercado. Sua influência é considerável e a organização não mede despesas para apoiar candidatos que defendem as mesmas posições nas eleições locais e nacionais.

A aplicação do Capítulo 11 nos Estados Unidos resulta na suspensão das ações judiciais e impede os credores de tomarem medidas para obter o pagamento de suas dívidas. 

"Nenhuma mudança significativa nas operações e no pessoal está planejada", disse Wayne LaPierre. “A NRA não está falida, não por suas atividades e não está insolvente”, continuou.

Em 2019, LaPierre conseguiu afugentar rivais tentando encerrar seu reinado de 30 anos na associação, mas não evitou uma revelação embaraçosa.

Documentos internos divulgados na mídia revelaram seu caro estilo de vida, com roupas de luxo e viagens para as Bahamas ou para a Itália pagas pela NRA graças a arranjos financeiros validados por aliados internos, que, junto com outras práticas, custaram US$ 64 milhões em perdas em três anos.

A imagem da NRA também sofreu com o aumento de ataques a tiros nos Estados Unidos. As armas mataram mais de 43 mil pessoas em 2020.

Além disso, a pandemia afetou a organização, que no ano passado demitiu dezenas de funcionários. O grupo cancelou sua convenção nacional e evitou a arrecadação de fundos. O pedido de falência da NRA listava entre US$ 100 milhões e US$ 500 milhões em ativos e entre US$ 100 milhões e US$ 500 milhões em passivos.

O grupo possui cerca de 5 milhões de membros. Embora sediada na Virgínia, a NRA foi licenciada como uma organização sem fins lucrativos em Nova York em 1871 e é constituída no Estado. Daqui para frente, a NRA disse que um comitê estudará oportunidades para realocar segmentos de suas operações para o Texas e outros lugares.

O maior credor do NRA, no valor de US$ 1,2 milhão, é Ackerman McQueen, a ex-agência de publicidade do grupo que era responsável pela TV NRA. O NRA processou a empresa em 2019, alegando que estava sendo faturada a mais. Os registros do tribunal também mostram mais de US$ 960 mil devidos à Membership Marketing Partners LLC, uma empresa que lista sua sede no mesmo endereço da NRA. Outros US$ 200 mil são devidos à Speedway Motorsports, empresa sediada na Carolina do Norte que possui e opera pistas da NASCAR, de acordo com os registros.

O governador republicano do Texas, Greg Abbott, comemorou a decisão. "Bem-vindo ao Texas - um Estado que salvaguarda a Segunda Emenda", escreveu no Twitter. A NRA diz ter mais de 400 mil membros no Texas e planeja realizar sua próxima convenção anual em Houston. /AFP e AP 

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