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A disputa na família real britânica: põe horrível nisso

Há um quarto de século, a rainha Elizabeth exumou a expressão latina annus horribilis; era o ano de 1992 e Elizabeth exprimia sua tristeza com os dissabores da família real

Gilles Lapouge, O Estado de S.Paulo

14 de janeiro de 2020 | 06h00

Há um quarto de século, a rainha Elizabeth exumou, sem dúvida, de suas lembranças escolares, a expressão latina annus horribilis. Era o ano de 1992 e Elizabeth exprimia sua tristeza, temperada com uma ponta de cólera, com os dissabores da família real causados por Andrew, Anne e Charles.

A expressão usada pela soberana está um pouco fora de moda, mas poderia bem ser aplicada à passagem de 2019 para 2020. De novo, como em 1992, a família real causa grande preocupação a Elizabeth. Desta vez, foi uma decisão brusca do príncipe Harry (segundo filho da princesa Diana) e de sua jovem mulher, Meghan Markle, que azedou as férias da rainha.  

O jovem casal resolveu viver fora da Inglaterra metade do ano, sem dúvida no Canadá, e cuidar do próprio sustento. É uma decisão corajosa, embora eles não venham a ter dificuldades em fechar o mês: se quiserem arrumar emprego, basta escolher o que desejarem. O caso, no entanto, assumiu tal gravidade que a rainha resolveu convocar uma reunião de família.

Como desgraça pouca é bobagem, outras contrariedades surgiram para afligir a Casa de Windsor. O marido da rainha, príncipe Philip, de 98 anos, sofreu um sério acidente de carro. Saiu ileso, mas perdeu a carteira de habilitação. 

O contratempo mais grave, porém, foi causado pelo príncipe Andrew, segundo filho homem de Elizabeth e seu favorito. Andrew tinha amizade com o financista americano Jeffrey Epstein, que, acusado de assédio sexual, acabou se suicidando.

Na política, o ano passado também não foi bom para Elizabeth. Ela jamais viu com bons olhos a saída do Reino Unido da União Europeia, mas, respeitando a tradição, nunca falou a respeito. Entretanto, segundo os entendidos em realeza, a rainha deu a conhecer seu descontentamento por indícios discretos, quase subliminares. 

Um dia, em 1997, ela usou um chapéu com as cores da UE. O caso virou objeto de debate, mas as conclusões foram incertas porque a rainha usa um grande número de chapéus, de todas as cores.

Outros fatores, mais ou menos significativos, marcaram 2019 no Reino Unido. Meghan não caiu no gosto dos britânicos. Ela é considerada “temperamental”, além de ser americana, não branca e atriz de cinema. Uma vez, acompanhada do marido, foi de jato privado a Nice para dar bom dia a Elton John.

Se o chapéu com as cores da UE realmente existiu, sua dona deve ter sofrido com a vitória de Boris Johnson e a afoiteza com que ele conduziu seu país ao divórcio da União Europeia. E outra ameaça já se esboça: um pedaço da grande ilha, a Escócia, pediu a Londres, pela voz de sua primeira-ministra, Nicola Sturgeon, autorização para organizar um outro referendo, sobre a saída da Escócia da UE. Boris Johnson respondeu “não”.

Mas, a exemplo da rainha Elizabeth, que enfrentou tantas crises com sua conhecida energia, a história do Reino Unido é uma coleção de desafios, às vezes mortais, encarados com uma capacidade incomum de resistência.

Ao fim da Idade Média, os ingleses se instalaram solidamente na França, mas uma pastorinha, Joana d’Arc, se empenhou em expulsá-los da França. Foi queimada viva na grande Praça de Rouen. Mais tarde, Napoleão Bonaparte tomou metade da Europa. Ele parecia invencível. No fim, os ingleses prenderam Napoleão e o exilaram em uma ilha atroz, Santa Helena.

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Na 2ª Guerra, Hitler conquistara metade do continente - menos a Rússia e o Reino Unido. Ele mandou esquadrilhas de aviões equipados com bombas V-2 para destruir Londres. Os moradores da capital britânica não se curvaram, resistindo com sangue-frio e sofrimento. 

Hitler nunca pôs os pés na grande ilha. Essa é a Grã-Bretanha. Ela teve sua sobrevivência ameaçada e poderia ter sido aniquilada ou reduzida a uma sombra do que é, mas venceu e continua lá. A coragem dos ingleses, seu orgulho, sua fleuma, seu humor, seu cinismo e sua insularidade lhes dão uma capacidade de resistência fora do comum.

Hoje, a palavra da moda é resiliência, emprestada, acho eu, do vocabulário da ciência. Ela designa a capacidade de um material de resistir ao choque com um metal, ou ainda a capacidade de alguém de superar choques traumáticos. As duas concepções traduzem a força do povo inglês. / TRADUÇÃO DE ROBERTO MUNIZ

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