David Payr/The New York Times
David Payr/The New York Times

Polarização é marca de eleição na Áustria

Exposição de arte em estádio vira símbolo do antagonismo político na Caríntia, região que já foi reduto da extrema direita austríaca

Alex Marshall / The New York Times, Klagenfurt, Áustria

29 de setembro de 2019 | 06h00

A Áustria vota hoje para renovar o Parlamento e escolher um novo governo, após a queda da coalizão entre os conservadores e a extrema direta, em maio. Os últimos meses de campanha mostraram que o país, como outras partes do mundo, padece da mesma polarização que dificulta alianças e estimula antagonismos. Um exemplo do conflito entrincheirado na política austríaca é uma exposição de arte em um estádio de futebol, inaugurada no início do mês.

O artista suíço Klaus Littmann diz que estava preparado para as queixas, quando mandou plantar 300 árvores – algumas 15 metros de altura – no gramado do Estádio Wörthersee, o segundo maior da Áustria, na cidade de Klagenfurt, na Caríntia. A ideia era alertar às pessoas que as florestas podem ficar restritas a espaços restritos, se a humanidade não agir rápido. 

Segundo Littmann, entrar em um estádio e se deparar com uma floresta pode ser um espetáculo raro, como ir a uma partida de futebol ou observar animais no zoológico. O artista até se preparou para receber críticas de ambientalistas irritados com o fato de as árvores terem sido trazidas de Bélgica, Itália e Alemanha, o que poderia passar uma imagem ecologicamente errada. O que ele não previa era a reação da extrema direita.

A Caríntia já foi um reduto do Partido da Liberdade da Áustria (FPÖ), de nacionalistas radicais. Muitos moradores reclamara de quase tudo. Alguns protestaram porque a exposição – batizada de For Forest – era um desperdício de dinheiro público, apesar de o evento ter financiamento privado. 

Littmann também foi atacado por usar árvores estrangeiras, em vez das locais da Caríntia, e acusado de impedir que o time de futebol da cidade usasse o estádio para jogos importantes do Campeonato Austríaco – de fato, o Austria Klagenfurt, que joga segunda divisão, deslocou seus jogos em casa para o modesto Estádio Karawankenblick, com capacidade para 2 mil torcedores.

“Nunca imaginei que isso pudesse acontecer”, disse Littman. “As pessoas a estão usando a exposição para a guerra política.” Ele conta que já foi agredido na rua e diz que as pessoas mais exaltadas mandaram que ele votasse para a Suíça, onde vive.

Um pequeno grupo de manifestantes do partido Aliança para o Futuro da Áustria (BZÖ), também de extrema direita, apareceu do lado de fora do estádio e acenou com motosserras – eles alegaram que se tratava de “protesto satírico” contra o projeto artístico.

No entanto, os maiores ataques à exposição vieram mesmo do FPÖ, que ainda tem uma base forte na Caríntia e cujo ex-líder Jörg Haider já foi governador do Estado. Haider, que morreu em um acidente de carro em 2008, era um político extravagante e conhecedor da mídia que trouxe visões anti-imigrantes e anti-União Europeia para popularizá-las na Áustria – bem antes da onda extremista atual.

O FPÖ anda em baixa na Caríntia. Nas eleições regionais, em 2018, obteve menos de um quarto dos votos. Em nível nacional, o partido também não vai bem das pernas. O último governo de coalizão da Áustria foi derrubado em razão de um vídeo que mostra Heinz-Christian Strache, atual líder do partido e vice-chanceler austríaco, prometendo contratos governamentais em troca de apoio financeiro de uma mulher que ele pensava ser uma russa bilionária.

Gernot Darmann, presidente do FPÖ na Caríntia, negou que o partido se opusesse à instalação por causa de sua mensagem ambiental, mas também criticou a exposição. “O projeto deixa uma pegada ecológica devastadora, porque as árvores foram importadas”, disse. “Esse projeto teria mais significado em grandes cidades industriais com o ar poluído e em países onde a floresta está sendo explorada ou destruída.”

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