Polícia britânica aponta que especialista cometeu suicídio

Tudo indica que o cientista David Kelly, apontado como fonte das denúncias de que o governo do primeiro-ministro Tony Blair esquentou relatórios dos serviços secretos para justificar a guerra contra o Iraque, suicidou-se, cortando o pulso esquerdo, informou hoje a polícia britânica. "A autópsia revelou que o doutor Kelly morreu de hemorragia, causada por ferimento no pulso esquerdo produzido por lâmina", destacou um porta-voz da Scotland Yard. Ao lado do corpo, encontrado às 6h20 (hora de Brasília) de sexta-feira em Harrowdown Hill, havia uma faca e uma caixa vazia do analgésico Coproxamol. "A conclusão a que chegamos não significa ponto final no inquérito que vai prosseguir", disse o porta-voz da polícia. "Neste estágio das investigações não há nenhuma indicação do envolvimento de outra parte no caso", acrescentou. Especialista em biologia e armas de destruição em massa do Ministério da Defesa britânico, o cientista foi acusado pelo próprio governo de ser "a fonte dos serviços secretos" citadas pela BBC quando a emissora acusou a assessoria de Blair de manipular relatórios sobre as supostas armas de destruição em massa existentes. No início da semana, ele havia sido interrogado durante cinco horas pela Comissão de Relações Exteriores da Câmara dos Comuns, que investiga a autenticidade dos argumentos usados pelo governo para intervir militarmente no país árabe. Ele negou ter sido a fonte da BBC que gerou a grave crise de credibilidade enfrentada hoje por Blair. A mulher de Kelly, Janice, disse que seu marido se sentia "terrivelmente pressionado e deprimido" desde que foi convocado para depôr. Segundo analistas, a morte do cientista nas circunstâncias em que ocorreu - após ter ele sido apontado como "pivô" da crise por Downing Street - só agrava a situação de Blair. O episódio também prejudicou o giro que o primeiro-ministro faz por países da Ásia. Líderes trabalhistas na Câmara dos Comuns pediram a ele que retorne imediatamente ao país. Em Tóquio, o líder britânico, visivelmente abatido, disse que pedirá ampla investigação sobre as circunstâncias da morte de Kelly. Em entrevista coletiva ao lado do primeiro-ministro japonês, Junichiro Koizumi, Blair não perdeu a fleuma quando um jornalista britânico indagou: "Você tem sangue nas mãos, primeiro-ministro? Diante disso, não está pensando em renunciar? Ele não respondeu, apertou a mão do colega Koizumi e deu a entrevista por encerrada. Para ler mais sobre o caso: »Uma cronologia para ajudar a entender o caso David Kelly »Casa Branca libera documentos da CIA vinculados ao caso do Iraque »Secretaria da Defesa diz que David Kelly falou mesmo com BBC »Escritório de Blair quer investigar caso do especialista em armas »Polícia avança na identificação de corpo de perito em armas britânico »Encontrado corpo na busca por especialista em armas do Iraque

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.