Federico Parra/AFP
Federico Parra/AFP

Polícia caça infratores de medidas contra a covid nas periferias da Venezuela

Agentes tentam 'quebrar cadeia de infecções' em meio a alarmante segunda onda, diz chefe da segurança municipal

Redação, O Estado de S.Paulo

23 de março de 2021 | 16h40

CARACAS - “Repitam: 'devo usar máscara!'”, ordena um policial a um grupo de adolescentes em um bairro periférico.

Os meninos obedecem com desânimo. “Mais alto, não consigo ouvir vocês!”, insiste o oficial. Eles repetem uma, duas, três, dez vezes antes que o agente os libere.

A operação de segurança foi realizada em bairros populares de Los Teques, no Estado de Miranda, na Venezuela.

Os agentes tentam "quebrar a cadeia de infecções" em meio a uma alarmante segunda onda de covid-19 no país, explica Carlos Andrade, chefe da segurança municipal. 

Nesta região, há restrição de mobilidade a partir das 18h e fechamento de lojas às 16h. O uso de máscara é obrigatório e encontros com mais de cinco pessoas devem ser evitados. 

Cerca de 50 agentes, alguns armados, vão de motocicleta até o perigoso bairro El Nacional.

Um deles, Andrade, anuncia que são 6 da tarde e pede que um grupo de mototaxistas e um lojista voltem para suas casas.

Depois de um ponto, é preciso continuar a pé. Os policiais entram nas vielas, saturadas de humildes casas de tijolos, escadarias e corredores estreitos. A noite começa a cair. 

“Mãos ao alto! Contra a parede”, grita Marco Rodríguez, um dos policiais da operação, aos jovens sem máscara. Acostumados com as operações, eles obedecem com calma. Após uma busca rápida, o refrão começa: 'devo usar a máscara'". 

Outros moradores recebiam a mesma ordem em uma tentativa policial de fazer cumprir a medida decretada pela Presidência. 

A jornada continua e os agentes pedem que as pessoas voltem para casa, batem nas portas onde ouvem música para verificar se não há aglomeração. "Não são festas", diz um. 

Com cerca de 30 milhões de habitantes, a Venezuela registra quase 150 mil infecções e 1.500 mortes por coronavírus, números questionados por organizações não governamentais que relatam uma alta subnotificação. 

As autoridades alertaram para uma segunda onda "mais virulenta", que coincide com a chegada de uma variante brasileira, e impuseram novas restrições. Mas nas áreas populares e rurais, multidões são regra e uso de máscaras, muitas vezes, exceção.

"É para o bem de todos"

Depois de El Nacional, a próxima parada é Guaremal, o maior bairro da região. “Era um bairro onde não era possível abrir galpões, não entrava transporte público. Conseguimos erradicar o crime”, celebra Andrade. "Não temos grupos estruturados." 

O agente acompanha uma criança até a casa dos pais e então se depara com um culto evangélico que reúne cerca de 40 pessoas. A abordagem aqui é mais diplomática. 

“Eu o respeito, mas eles têm que usar a máscara. É para a saúde deles e dos outros”, disse Andrade à congregação. "Senhorita, não tem máscara? Por favor, saia, é para o bem de todos", pede. “Estamos aqui pela segurança da comunidade”.

Um tanto constrangido, o pastor pega o microfone para agradecer ao policial com um "Deus o abençoe". 

"Amém", ele responde enquanto sai. 

As motocicletas seguem viagem até Brisas de Oriente, outro bairro próximo. O roteiro se repete: fechamentos de lojas, pedidos por máscaras, buscas de segurança. 

“Nos bairros nem sempre se presta atenção ao que diz o governo”, reconhece o agente Pedro Zerpa, que garante que a polícia vai voltar se as lojas reabrirem. 

São 22 horas e a operação termina. 

Alguns motoristas de táxi olham para os policiais com desânimo. “A operação é boa para segurança e o problema do assaltos”, afirma Michel Delgado, um dos taxistas. “Mas a situação está péssima, ganhei 5 dólares esta semana quando normalmente ganhava 40... está tudo fechado. Temos família, é bem difícil”. /AFP

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