Bloomberg photo / Pau Barrena
Bloomberg photo / Pau Barrena

Polícia catalã acata Justiça espanhola e fecha locais de plebiscito

Tribunal Constitucional, Ministério Público e governo de Mariano Rajoy tentam impedir votação; manifestação encerra campanha em Barcelona

Andrei Netto, ENVIADO ESPECIAL /BARCELONA, ESPANHA, O Estado de S.Paulo

29 Setembro 2017 | 18h57

BARCELONA - A polícia da Catalunha começou ontem a isolar e a fechar escolas ocupadas nas últimas horas por estudantes e pais, que pretendiam garantir o uso dos estabelecimentos como seções eleitorais do plebiscito independentista de domingo. A decisão confirma a intenção das autoridades de respeitar a decisão do Tribunal Constitucional, do Ministério Público e do governo de Mariano Rajoy, que tentam impedir a realização da votação secessionista. 

+Os possíveis cenários na Catalunha diante do plebiscito de independência

O fechamento obrigatório das escolas, que representam a maioria dos 2,3 mil pontos de votação previstos, acontecerá a partir das 6h da manhã de domingo, mas em casos pontuais retiradas já começaram ontem. 

À noite, a Escola Collaso I Gil, situada em Carrer de Sant Pau, no centro de Barcelona, já havia sido retomada pelas forças de ordem após um rápido atrito com estudantes e pais que tentavam permanecer no local. 

Incidentes semelhantes também aconteceram nos bairros de Sants, de Gràcia, de Pau Casals, na capital, e em estabelecimentos da periferia e do interior da Catalunha. Não havia notícias de feridos nas evacuações.

A orientação expressa dos Mossos d’Esquadra, a polícia catalã, é de que não seja usada a violência em hipótese alguma para esvaziar as instituições. O uso de cacetetes ou bombas de gás lacrimogêneo, por exemplo, está proibido. Os agentes poderão usar a força física para abrir corredores e escoltar os eventuais ocupantes até a porta da rua. 

Em caso de distúrbios sociais, agentes da Polícia Nacional e da Guarda Civil serão chamados para reforçar a segurança. “Em nenhum caso se poderá servir de defesa policial, ou outros elementos de natureza social”, diz a circular distribuída pelo chefe de polícia catalão, Josep Lluís Trapero aos policiais ontem. “Deverá imperar a contenção e a mediação para contribuir e facilitar a manutenção da paz social e da convivência.”

Na prática, a circular confirma que a polícia da Catalunha seguirá subordinada ao Tribunal Constitucional e ao Ministério Público, e não atenderá aos apelos de líderes e grupos independentistas por desobediência civil de parte da polícia.

Durante todo o dia, estudantes se mobilizaram em torno de escolas para garantir que os locais poderão ser usados pelos 5,3 milhões de catalães chamados às urnas no domingo. Berta Vilaseca, 19 anos, e Júlia Berrido, 18 anos, líderes do Sindicato Estudante dos Países Catalães, estão entre os que vêm militando pela abertura das escolas nas últimas horas. 

“Esperamos que o plebiscito aconteça. É importante votar porque passamos muitos anos privados de nossa língua, de nossa cultura. Vamos reivindicar e mostrar que estamos aqui”, afirmou Berta. “Está na Declaração Universal dos Direitos Humanos o direito à autodeterminação dos povos. Nós estamos sendo privados de nosso direito. Tentamos negociar um plebiscito oficial, mas não aceitaram. Então vamos votar à força.”

À noite, pais e filhos visitavam escolas para se assegurar que não haveria violência contra os ocupantes. Esse era o caso de Xavi Malet, designer gráfico de 53 anos, e sua filha Duna, de 14. “Estamos dando voltas por diferentes escolas. O ambiente é de muito otimismo sobre o domingo. Vai haver votação”, comemorou Malet, que só fala catalão, e não castelhano, na família. “A Espanha é irreformável, e nós queremos viver em um país melhor. Agora saberemos quanta gente quer a independência. Se essa maioria disser ‘Somos independentes!’ no plebiscito, terá de haver uma transição legal, e vamos seguir nosso caminho sozinhos.”

Ato

Dezenas de milhares de pessoas voltaram a se manifestar em Barcelona, no fim da campanha pelo “sim” à soberania. O comício foi realizado em Montjuic, uma região tradicional da cidade, por um pool de entidades que vão do governo catalão à partidos políticos, associações secessionistas e entidades municipais catalãs. Entre as personalidades reunidas estavam o presidente da região da Catalunha, Carles Puigdemont, e o vice-presidente, Oriol Junqueras, dois líderes do movimento independentista. 

"Tudo vai mudar porque nossa causa é a liberdade, a Justiça e a dignidade. Nos colocaram muitas travas e dificuldades e farão todo o possível para seguir colocando-as", advertiu Junqueras em seu discurso. "Com nossa mobilização, demonstramos que somos capazes de superar todos os obstáculos porque na superação do medo começa o caminho da liberdade." 

 

Encontrou algum erro? Entre em contato

publicidade

publicidade

publicidade

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.