Martin Bernetti/AFP
Martin Bernetti/AFP

Polícia chilena é acusada de novo abuso durante protesto

Agente teria empurrado adolescente de 16 anos que foi cercado em ponte de Santiago; reforma da instituição fica no papel

Redação, O Estado de S.Paulo

07 de outubro de 2020 | 05h00

SANTIAGO - A queda de um adolescente de uma ponte em Santiago, após ser empurrado por um agente das forças de segurança, reacendeu o debate sobre os abusos dos Carabineros do Chile, a polícia nacional do país – alvo de críticas e de uma prometida reforma que não aconteceu. 

Pelo menos 20 policiais atacaram um grupo de manifestantes reunidos na última sexta-feira, 2, na Praça Itália, em Santiago, epicentro das manifestações sociais que ocorrem no Chile há um ano. Um dos agentes cercou o jovem de 16 anos até o parapeito da Ponte Pio Nono sobre o Rio Mapocho, onde ele caiu de mais de 7 metros de altura. O adolescente não foi socorrido pela polícia, que também tentou encobrir a ação. Ele está internado na clínica Santa María de Santiago e não corre risco de morrer.

A Carabineros afirma que se tratou de um acidente. A Justiça, porém, considerou que houve força excessiva e determinou a prisão do agente por “tentativa de homicídio”. O Escritório para a América do Sul do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos exigiu uma investigação “exaustiva” sobre o incidente.

O caso deu novo fôlego aos movimentos populares a poucos dias do primeiro aniversário, no dia 18, da maior manifestação social em décadas no país – que deixou pelo menos 30 mortos e centenas de feridos. Na ocasião, a polícia foi acusada de violar os direitos ao reprimir os protestos e prometeu fazer uma reforma nos procedimentos. 

Para os especialistas, no entanto, pouca coisa mudou em quase um ano – os protestos foram interrompidos por vários meses em razão da pandemia. Lucía Dammert, especialista em questões de segurança e professora da Universidade de Santiago, afirma que um dos principais problemas da polícia chilena é a concepção de que enfrenta “um inimigo interno permanente”. 

“Percebe-se que é uma estratégia policial muito marcada entre ‘nós e os outros’, e os outros são os inimigos, os criminosos, os vândalos, e é uma retórica que também tem uma ressonância política que a legitima”, disse Dammert. Os “eles” são os manifestantes, afirma a acadêmica, embora também o sejam os mapuches (povo indígena da região centro-sul do Chile) e os setores populares.

Os casos de corrupção descobertos após o desvio de mais de US$ 30 milhões (R$ 167 milhões) por generais entre os anos de 2006 e 2017, além do assassinato de um membro da comunidade mapuche, em 2018 – morto por um tiro na cabeça disparado por um policial – contribuíram para minar a imagem pública dessa instituição que até 5 anos atrás era muito conceituada no país. 

Para Dammert, nem a saída do diretor-geral dos Carabineros, Mario Rozas – exigida pela oposição após o incidente de sexta-feira – serviria para aliviar o descontentamento de grande parte do país com sua polícia, que precisa de uma “reforma estrutural” e treinamento exaustivo dos seus efetivos. 

O Instituto Nacional dos Direitos Humanos também alertou que “os Carabineros do Chile não deram toda a colaboração necessária para que haja verdade e justiça” no país a respeito “das graves violações dos direitos humanos ocorridas durante as manifestações sociais”, ressaltou seu diretor jurídico, Rodrigo Bustos.

O inspetor-geral Ricardo Yáñez, diretor de Ordem e Segurança dos Carabineros, disse que a corporação passa por um trabalho de “modernização institucional e capacitação permanente do pessoal”, com mudanças de equipamentos, menos letais, e procedimentos. /AFP

 

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