Polícia chilena se desculpa por morte de aluno

Manifestantes ocupam prédio de órgão que credencia universidades no país; reunião de estudantes com Piñera em La Moneda ocorrerá no sábado

Fernando Gabeira, O Estado de S.Paulo

31 de agosto de 2011 | 00h00

ENVIADO ESPECIAL /SANTIAGO

O comandante dos carabineiros - a polícia chilena -, general Eduardo Gordon, pediu ontem desculpas à família do adolescente Manuel Gutiérrez Reinosa, morto no fim de semana. Gordon anunciou que vai remanejar a direção metropolitana do órgão. O governo, por sua vez, marcou para sábado o diálogo com os estudantes, no Palácio La Moneda, com participação do presidente Sebastián Piñera.

Ontem, mais três membros dos carabineiros envolvidos na repressão aos protestos foram afastados de suas funções. "Lamentavelmente, um de nossos homens deixou de cumprir as normas, usou armas de fogo, e, além disso, ocultou essa informação", disse o comandante.

Ainda de acordo com Gordon, a morte do estudante foi um "caso isolado". "Nos dói muito que a instituição tenha usado uma política agressiva, mas são casos pontuais e não a política dos carabineiros", acrescentou.

Enquanto o general fazia seu "mea-culpa", estudantes da Universidade Tecnológica (Unicap) ocupavam o prédio do escritório do governo que credencia universidades no Chile. "A educação de Pinochet vai cair", gritavam os cerca de 30 universitários que participaram da ação.

A ocupação feita pelos estudantes é apenas uma das mobilizações que serão realizadas ao longo da semana. Diante do prédio, muitos carros buzinavam para expressar apoio. Pesquisas realizadas no Chile registram um apoio de 77% da população ao movimento estudantil, mas também um repúdio aos extremistas encapuzados que aparecem no fim das manifestações.

Cerca de 15 minutos depois da ocupação do prédio do governo e da saída dos funcionários, um veículo dos carabineiros chegou ao local. Um policial tomou notas, trocou mensagens pelo rádio e foi embora. Os estudantes se revezavam entre as grades, gritando palavras de ordem, e pequenos grupos tentavam ver no celular se a notícia tinha saído.

Analistas consideram difícil um desfecho pacífico para o choque entre estudantes e governo. São dois modelos em choque. Um deles, instituído ainda no período Pinochet, é orientado pelo mercado; os estudantes querem ensino gratuito e de qualidade. Atualmente eles pagam uma taxa anual nas universidades públicas. O modelo chileno combina bolsas e empréstimos aos estudantes universitários, mas o endividamento em massa, no princípio do ano, acabou dando início às manifestações.

A lei de educação no Chile, no seu Artigo 30, proíbe que as universidades tenham fim lucrativo. No Senado, tramita um projeto proibindo que o governo destine recursos para colégios com orientação comercial. Muitos chilenos dizem que o ensino não pode ser regido pelo mercado. / COM AFP

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