EFE/ Jorge Torres
EFE/ Jorge Torres

Opositora de Ortega é detida na Nicarágua

MP acusa Cristiana Chamorro de vários delitos e pede sua inabilitação eleitoral

Redação, O Estado de S.Paulo

02 de junho de 2021 | 15h57
Atualizado 02 de junho de 2021 | 21h45

MANAGUA - A jornalista e pré-candidata à presidência da Nicarágua Cristiana Chamorro foi detida nesta quarta-feira, 2, em sua casa após o Ministério Público acusá-la de vários delitos, atendendo a uma denúncia do governo. As acusações podem torná-la inelegível. Chamorro é o nome com mais chances de derrotar nas urnas o presidente Daniel Ortega.

Segundo o irmão da candidata de oposição, Carlos Fernando Chamorro, a polícia chegou a meio-dia à casa de Cristiana com uma ordem de prisão emitida nesta quarta-feira pela juíza Karen Chavarría. “A esta hora, minha irmã, Cristiana Chamorro, ia dar uma entrevista coletiva para falar sobre a ação ilegal para despojá-la de seus direitos políticos, para inibi-la como candidata presidencial”, publicou Carlos, em sua conta no Twitter.

Chamorro foi colocada em prisão domiciliar, ainda segundo seu irmão. "Depois de mais de cinco horas de batidas policiais na casa de minha irmã (...) às 17h15 (horário local) a tropa de choque a deixa em prisão domiciliar, em isolamento", escreveu.

Segundo a imprensa local, Cristiana foi acusada de “gestão abusiva, falsidade ideológica e participação em lavagem de dinheiro, bens e ativos, prejudicando o Estado da Nicarágua e a sociedade do país”. Na acusação, o Ministério Público pede a desqualificação de Cristiana no processo eleitoral, assegurando que ela “não tem plenos direitos políticos e civis, pois está sob um processo criminal”.

Cristiana ainda não havia oficializado sua candidatura, já que o período para registro é entre 28 de julho e 2 de agosto. O MP começou a investigá-la depois que o Ministério do Interior a acusou de supostas irregularidades na administração da Fundação Violeta Barrios de Chamorro (FVBCH), uma organização que leva o nome de sua mãe e é dedicada à defesa da liberdade de imprensa e de expressão.

Violeta Chamorro foi eleita presidente da Nicarágua em 1990, derrotando Ortega com mais de 14 pontos porcentuais de diferença. Também estão detidos, desde 28 de maio, o ex-administrador da FVBCH Walter Gomez e o ex-contador Marcos Fletes. “Eu sou inocente até que provem o contrário. Aqui não foram capazes de provar nenhuma acusação. Portanto, podemos disputar cargos eleitorais”, disse Cristiana. Ela considera as acusações uma “farsa” para retirá-la da disputa eleitoral.

A opositora, que não é filiada a nenhum partido, tinha 21% de intenções de voto, atrás apenas de Ortega (30%), segundo uma pesquisa do instituto Cid Gallup, divulgada na semana passada. No dia 24, o governo congelou suas contas e ordenou o levantamento do sigilo bancário.

O bloco opositor, denominado Coalizão Nacional, acusou Ortega de “iniciar uma caça às bruxas” contra os pré-candidatos, pois “teme um processo livre e transparente”.

Em comunicado, a secretaria-geral da Organização dos Estados Americanos (OEA) rejeitou a inabilitação da candidatura de Cristiana e declarou que “a Nicarágua se encaminha para as piores eleições possíveis”. “Estas ações tiram toda a credibilidade política do governo e dos organizadores do processo eleitoral”, disse a OEA.

Ortega, de 75 anos, governou a Nicarágua entre 1985 e 1990 e voltou a poder em 2007. Ele ainda não confirmou sua participação nestas eleições, mas adversários acreditam que ele buscará um quarto mandato presidencial consecutivo de cinco anos.

Desde 2018, Ortega enfrenta uma crise política detonada por protestos em massa contra medidas de seu governo que levaram a pedidos de renúncia. Os protestos deixaram 328 mortos e milhares de exilados, segundo a Comissão Interamericana de Direitos Humanos. Para Ortega, tratou-se de uma fracassada tentativa de golpe apoiada por Washington.

Os EUA acusaram Ortega de temer eleições livres. “Proibir arbitrariamente a líder da oposição Cristiana Chamorro reflete o medo de Ortega de eleições livres e justas. Os nicaraguenses merecem uma democracia real”, disse no Twitter o chefe da diplomacia americana, Antony Blinken.

A FVBCH encerrou as operações em fevereiro, depois que uma lei aprovada pelo Congresso, de maioria governista, intensificou os controles sobre as contribuições que as ONGs recebiam do exterior. O governo considera a ajuda um risco de interferência na política interna. / AFP, REUTERS e AP

 

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