Polícia de Hong Kong reprime protesto de 80 mil por democracia

China alertou contra qualquer intervenção externa enquanto a Grã-Bretanha pede que direito de manifestar seja respeitado

O Estado de S. Paulo

29 de setembro de 2014 | 10h41

HONG KONG - Durante protestos em Hong Kong nesta segunda-feira, 29, manifestantes pró-democracia enfrentaram o avanço de policiais com cassetetes e bombas de gás lacrimogêneo, em um dos maiores desafios políticos para Pequim desde e episódio da Praça da Paz Celestial há 25 anos.

A China colocou a culpa nos estudantes que protestavam e alertou contra qualquer interferência externa, à medida que os jovens se reuniam em distritos comerciais e turísticos na cidade, no fim da tarde. "Hong Kong é a Hong Kong da China”, disse a porta-voz do Ministério de Relações Exteriores, Hua Chunying, em tom desafiador em Pequim.

Os distúrbios são os piores em Hong Kong desde que a China assumiu o controle da ex-colônia britânica em 1997. Nuvens de gás tomaram as ruas ao redor de alguns dos prédios comerciais e shoppings mais valiosos do mundo, antes de a polícia repentinamente se retirar, após três noites de confrontos.

A China governa Hong Kong sob uma fórmula de "um país, dois sistemas", que tenta delimitar a democracia do território. Milhares de manifestantes, a maioria estudantes, exigem que Pequim conceda democracia total, com a liberdade de indicar os candidatos nas eleições, mas a China recentemente anunciou que não iria tão longe.

Após a tropa de choque ter se retirado nesta segunda, manifestantes receosos dormiram ao lado das vias e abrigados contra o sol sob guarda-chuvas, que se tornaram um símbolo do que muitos estão chamando de "Revolução dos Guarda-chuvas". Em acréscimo aos elementos de proteção, esses objetos têm sido usados como escudos contra spray de pimenta.

Nicola Cheung, uma estudante de 18 anos da Universidade Batista local, disse que os manifestantes no distrito central do território estavam avaliando a situação e planejando o que fazer depois.

"Sim, ficará violento novamente porque o governo de Hong Kong não aceitará que nós ocupemos esta área", disse ela. "Estamos lutando pelos nossos valores centrais de democracia e liberdade e isso não é algo que a violência pode tirar de nós."

Organizadores disseram que até 80 mil pessoas lotaram as ruas após os protestos terem ganhado corpo na sexta-feira 26 à noite. Não há uma estimativa independente sobre esses números.

Os manifestantes, que não têm um líder identificado, formam um movimento de massa composto, em grande parte, de estudantes conectados que cresceram com liberdades não permitidas na China continental. O movimento representa uma das maiores ameaças ao Partido Comunista de Pequim desde a sangrenta repressão contra protestos de estudantes pró-democracia na Praça da Paz Celestial (Tiananmen), em 1989.

Uma repressão muito severa pode abalar a confiança em Hong Kong, cidade orientada para o mercado financeiro, ao passo que não reagir firmemente pode atiçar estudantes da China continental.

Os protestos devem ganhar força em 1º de outubro, feriado do Dia Nacional da China, data de fundação da República Popular da China. O governo de Hong Kong disse nesta segunda que cancelará o tradicional show de fogos de artifício realizado na data em razão da preocupação com a segurança, pois o acesso as principais ruas seria prejudicado.

Moradores de Macau, perto de Hong Kong, já planejam uma manifestação. Apoiadores pró-democracia vindos de outros países também devem protestar, causando mais embaraço a Pequim.

A Grã-Bretanha disse estar preocupada sobre a situação em Hong Kong e pediu para que o direito de protestos seja garantido. O Consulado Geral dos EUA em Hong Kong emitiu uma nota pedindo para que todos os lados "evitem ações que escalariam mais as tensões".

Bancos em Hong Kong, incluindo HSBC, Citigroup, Bank of China, Standard Chartered e DBS, fecharam algumas agências e aconselharam funcionários a trabalhar de casa ou ir para outras unidades.

A Autoridade Monetária de Hong Kong, o banco central da cidade, disse que os mercados interbancários e o mecanismo de câmbio não foram afetados pelos distúrbios. / REUTERS

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