olga Akmen/AFP
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Polícia de Londres aumenta vigilância com reconhecimento facial em tempo real

Trata-se de um avanço importante no uso de uma tecnologia que já desencadeou um debate em todo mundo sobre o equilíbrio entre segurança e privacidade

Adam Satariano / The New York Times, O Estado de S.Paulo

27 de janeiro de 2020 | 08h00

LONDRES - O Departamento de Polícia de Londres anunciou que começará a utilizar tecnologia de reconhecimento facial na cidade para identificar pessoas nas ruas em tempo real com câmeras de vídeo, adotando um padrão de vigilância raro, exceto na China.

Trata-se de um avanço importante no uso de uma tecnologia que já desencadeou um debate em todo mundo sobre o equilíbrio entre segurança e privacidade. A polícia argumenta que o software oferece uma vantagem tecnológica para caçar criminosos que, de outro modo, não seriam detectados. Para os críticos, a tecnologia constitui uma invasão de privacidade e será usada sem uma discussão pública adequada.

O Reino Unido está na linha de frente do debate. Num país onde câmeras CCTV estão instaladas nas ruas, a vigilância policial tradicionalmente tem sido mais aceita do que em outros países ocidentais. A tecnologia que Londres pretende adotar vai além de muitos sistemas de reconhecimento facial usados em outros lugares, que comparam uma foto com outra de um banco de dados para identificar uma pessoa. 

O novo sistema, criado pela empresa NEC, visa identificar pessoas incluídas numa lista de suspeitos em tempo real com câmeras de segurança, dando à polícia a chance de detê-las no local específico.

Pressionada para conter a onda de crimes que vem crescendo, a Polícia Metropolita informou, em comunicado, que a tecnologia contribuirá para identificar e prender rapidamente pessoas suspeitas e solucionar “crimes graves, incluindo atos violentos graves, crimes com armas brancas e de fogo, exploração sexual de crianças e proteger as pessoas vulneráveis”.

“Diariamente os policiais são informados sobre suspeitos que eles devem procurar”, disse Nick Ephgrave, comissário adjunto do Departamento de Polícia. “O reconhecimento facial ao vivo melhora a eficácia deste trabalho. Como uma força policial moderna, acho que temos o dever de usar novas tecnologias para manter as pessoas protegidas em Londres."

Já de uso generalizado na China, o reconhecimento facial vem ganhando força nos países ocidentais. Uma investigação realizada pelo New York Times concluiu que mais de 600 delegacias de polícia estão usando um sistema de reconhecimento facial da companhia Clearview AI. Segundo investigadores da Universidade Georgetown, cidades como Nova York, Chicago, Detroit e Washington já utilizaram, pelo menos a título experimental, sistemas de reconhecimento em tempo real.

O uso da tecnologia tem gerado forte reação. San Francisco e Berkeley, na Califórnia, junto com Somerville e Brookline, em Massachusetts, proibiram seu uso.

Grupos privados criticaram a decisão de Londres e prometeram acionar a justiça para impedir o uso pelo departamento de polícia.

“Esta decisão representa uma enorme expansão do Estado policial e uma grave ameaça às liberdades civis no Reino Unido”, disse Silkie Carlo, diretor do grupo Big Brother Watch, sediado em Londres, que vem combatendo o uso do reconhecimento facial. ‘É um ataque avassalador contra nossos direitos e nós vamos confrontá-lo”.

Em um post no Twitter, a companhia insinua que entrará na justiça conta a medida: "Vejo vocês em um tribunal", diz a mensagem, em um repost do Departamento de Polícia sobre o tema. 

No ano passado um juiz britânico decidiu que a polícia podia usar a tecnologia sem violar os direitos humanos e de privacidade, numa ação que está em grau de recurso. O órgão do governo encarregado das normas sobre privacidade manifestou preocupação com o uso da tecnologia, como também um relatório independente sobre o uso experimental por parte da Polícia Metropolitana.

A polícia declarou que será transparente com relação ao uso da tecnologia. Serão postados cartazes e distribuídos folhetos quando as câmeras forem utilizadas.

Pesquisadores encontraram problemas em muitos sistemas de reconhecimento facial, incluindo dificuldades para identificar de modo acurado pessoas que não são brancas. Grupos de defesa das liberdades civis também apontam falhas na tecnologia como uma razão para não ser adotada, afirmando que ela levará a uma vigilância constante e inibirá a livre movimentação.

No Reino Unido, um exame independente da tecnologia, no ano passado, encontrou muitos problemas nos testes realizados pela polícia com a tecnologia, incluindo sua precisão. Das 42 identificações feitas pelo sistema em um dos testes, somente 8 estavam corretas.

“É incrivelmente impreciso”, afirmou o professor Daragh Murray, da Universidade de Essex, que conduziu a investigação. "Na maior parte das vezes não encontrou a pessoa que estava procurando. E, da perspectiva tecnológica, é preciso questionar sua utilidade."

Murray disse que sem leis claras sobre o uso da tecnologia, a polícia em todos os lugares terá ampla liberdade para instalar sistemas de câmeras. Na sua opinião, particularmente preocupante é a falta de transparência sobre como a polícia decide quem vai para a lista de pessoas a vigiar. “É uma liberdade excessiva dada à polícia. São necessárias salvaguardas adequadas envolvendo o uso da tecnologia."

O Information Commissioner’s Office, órgão que, entre outras atribuições,  defende os direitos de informação no interesse público e promove a abertura dos órgãos públicos e a privacidade de dados, declarou que vai monitorar como o sistema será instalado e que a polícia deu garantias de que adotará medidas para reduzir os riscos à proteção de dados e a privacidade dos indivíduos.

“É uma nova tecnologia com implicações no campo da privacidade potencialmente importantes para os cidadãos”, declarou o órgão em um comunicado. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

 

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