Carlos Ortega/EFE
Carlos Ortega/EFE

Polícia do Haiti prende chefe de segurança de presidente morto em ataque

Dimitri Hérard fez várias escalas na capital colombiana, Bogotá, nos meses anteriores ao crime; mercenários da Colômbia desempenharam papel central na matança

Catherine Porter, Eric Schmitt e Megan Special, The Washington Post, O Estado de S.Paulo

15 de julho de 2021 | 17h20

PORTO PRÍNCIPE, Haiti - O chefe da segurança do palácio do presidente Jovenel Moïse, assassinado na semana passada em sua casa, foi levado sob custódia policial nesta quinta-feira, 15, aprofundando o foco dos investigadores na possibilidade de que ajudantes internos facilitaram o caminho dos assassinos.

O chefe da segurança do palácio, Dimitri Hérard, fez várias escalas na capital colombiana, Bogotá, nos meses anteriores ao assassinato. Autoridades haitianas dizem que um grupo de ex-soldados da Colômbia, a quem acusam de agir como mercenários, desempenhou um papel central na matança.

Na quinta-feira, o Pentágono também confirmou que alguns desses veteranos colombianos receberam treinamento dos militares dos Estados Unidos, como parte de uma cooperação entre as forças de segurança dos dois países que se estende por décadas. Membros da família disseram que um deles era o principal recrutador da força mercenária, Duberney Capador, 40.

As revelações vieram enquanto autoridades no Haiti, Colômbia e Estados Unidos corriam para determinar quem estava por trás do assassinato de Moïse e os objetivos e meios dos conspiradores.

Na quinta-feira, a polícia colombiana disse que os dois líderes dos veteranos colombianos, Capador e o capitão aposentado German Alejandro Rivera, conspiraram com suspeitos haitianos já em maio para deter o presidente.

O comandante da polícia da Colômbia, general Jorge Luis Vargas, disse a repórteres que não ficou claro quando um plano para sequestrar Moïse se transformou em um plano de assassinato. Ele disse que sete agentes colombianos entraram na residência presidencial na noite do ataque, enquanto o restante guardava a área.

A detenção de Hérard, o chefe da segurança do palácio, foi confirmada por Marie Michelle Verrier, porta-voz da Polícia Nacional do Haiti.  Hérard era um dos quatro membros da equipe de segurança do presidente que seriam chamadas para depor no início desta semana, enquanto permanecem dúvidas sobre como os agressores conseguiram entrar na casa fortemente protegida.

O chefe da guarda presidencial e dois outros guarda-costas de alto escalão também foram chamados para interrogatório, disse Bedford Claude, o promotor público chefe em Porto Príncipe, a capital haitiana, no início desta semana. Ele havia emitido uma intimação para que os quatro comparecessem como parte da investigação do assassinato.

Na noite de quarta-feira, 14, as autoridades haitianas disseram que detiveram dois outros homens suspeitos de estarem envolvidos no assassinato, identificados como Reynaldo Corvington e Gilbert Dragon, encontrados em posse de um depósito de armas.

As dúvidas se concentraram em relatos de que nenhum membro da força de segurança de Hérard disparou um único tiro durante a invasão, apesar da abordagem de duas dúzias de mercenários armados, sua entrada no complexo presidencial e a erupção de tiros que mataram Moise e feriram gravemente sua esposa.

Treinamento americano

Em Washington, um porta-voz do Pentágono confirmou que alguns dos colombianos receberam treinamento dos militares dos EUA como parte de uma cooperação de longo prazo entre os países.

“Uma análise de nossos bancos de dados de treinamento indica que um pequeno número de colombianos detidos como parte desta investigação havia participado de programas anteriores de treinamento e educação militar dos EUA, enquanto servia como membro ativo das Forças Militares colombianas”, disse o porta-voz, tenente-coronel Kenneth L. Hoffman, em um comunicado.

A revisão do Pentágono ainda está em andamento, disse Hoffman, que se recusou a dizer exatamente quantos homens receberam treinamento, quando ou onde o receberam e o que a instrução implicava. Uma autoridade dos EUA disse que os militares identificaram até agora cerca de meia dúzia de colombianos que receberam anteriormente instrução militar americana.

A revelação de que alguns dos suspeitos colombianos haviam recebido treinamento militar americano foi noticiada anteriormente no Washington Post.

O Pentágono, incluindo seus Boinas Verdes do Exército, ministrou treinamento para milhares de militares em países da América Latina nas últimas décadas. A Colômbia, em particular, tem sido um parceiro militar americano significativo por muitos anos, recebendo bilhões de dólares desde 2000 em seu esforço para combater organizações do narcotráfico, guerrilhas de esquerda e grupos paramilitares de extrema direita.

Parte do treinamento de soldados colombianos dos EUA provavelmente aconteceu na Colômbia. Mas Capador, que recrutou os veteranos colombianos, viajou aos Estados Unidos para seu treinamento, segundo dezenas de entrevistas com familiares de recrutas, e com homens que foram recrutados por Capador, mas acabaram não indo para o Haiti. Capador está entre os três colombianos mortos em conseqüência do assassinato.

Histórico de violações

Entrevistas com familiares também revelaram que vários veteranos colombianos serviram na missão internacional de manutenção da paz na Península do Sinai, no Egito. A implantação os incutiu um senso de propósito e camaradagem, e levou pelo menos alguns deles a buscarem outras designações no exterior após a aposentadoria, disseram os parentes.

Capador viajou para os Estados Unidos para fazer um treinamento de “direitos humanos”, segundo sua irmã, Yenny Carolina Capador. Não está claro se ele fez algum contato duradouro dentro dos Estados Unidos durante esse tempo.

Oficiais militares dos EUA dizem que o treinamento enfatiza o respeito pelos direitos humanos e o cumprimento do Estado de Direito. Os legisladores americanos há muito acusam os militares colombianos de alvejar civis, violar as leis da guerra e não prestar contas.

O senador Patrick J. Leahy, democrata de Vermont, estava por trás de uma legislação que proíbe o treinamento ou equipamento de tropas ou unidades estrangeiras que cometam “graves violações dos direitos humanos”, como estupro, assassinato ou tortura.

“Queremos nosso treinamento de exércitos estrangeiros para construir profissionalismo e respeito pelos direitos humanos, mas não devemos ser ingênuos sobre o impacto de nosso treinamento”, disse Leahy em um comunicado na quinta-feira. “Se um exército estrangeiro tem um histórico de violação dos direitos humanos, como o da Colômbia, é difícil mudar isso, a menos que os perpetradores sejam punidos.”

Na Colômbia, o ministro da Defesa disse durante uma entrevista coletiva nesta semana que Hérard, o chefe da segurança do palácio haitiano detido, havia transitado por Bogotá seis vezes este ano a caminho de outros países latino-americanos, parando por dois dias ou mais em pelo menos uma ocasião.

Na semana passada, Hérard se recusou a responder a perguntas do The New York Times, enviando uma mensagem de texto: “Infelizmente, depois de consultar meu advogado, não estou em posição de comentar sobre isso no momento, pois esta é uma investigação aberta e um questão de segurança nacional. ”

Quando questionado, ele não forneceu o nome de seu advogado.

 

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.