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Polícia do Iraque mata 28 após protesto e invasão a consulado do Irã

Forças de segurança usam munição real contra manifestantes em Nassíria, no sul do país, e em Bagdá depois de representação de Teerã ser atacada; manifestantes esperam reação mais dura, mas prometem manter mobilização

Redação, O Estado de S.Paulo

28 de novembro de 2019 | 12h03

BAGDÁ - As forças de segurança do Iraque mataram a tiros pelo menos 28 pessoas nesta quinta-feira, 28, depois que manifestantes invadiram e incendiaram um consulado o Irã no dia anterior, o que deve causar uma escalada dos protestos contra as autoridades apoiadas por Teerã.

Pelo menos 24 pessoas morreram quando as tropas atiraram contra manifestantes que bloqueavam uma ponte na cidade de Nassíria, no sul do país, antes do amanhecer. Fontes médicas disseram que dezenas de pessoas ficaram feridas.

Outras 4 pessoas foram mortas na capital Bagdá, onde as forças de segurança abriram fogo com munição real e balas de borracha contra manifestantes perto de uma ponte sobre o Rio Tigre.

Os incidentes marcaram um dos dias mais sangrentos desde o início da revolta em outubro - que já deixou mais de 300 mortos -, com manifestações anticorrupção que se transformaram em revolta contra as autoridades, tratadas pelos jovens manifestantes como marionetes do Irã.

Em Najaf, uma cidade com santuários antigos e que serve como sede do poderoso clero xiita iraquiano, o consulado iraniano foi transformado em uma ruína carbonizada depois de ter sido invadido na madrugada anterior.

Os manifestantes acusaram as autoridades iraquianas de se voltarem contra seu próprio povo para defender o Irã.

"Toda a polícia antimanifestação em Najaf e as forças de segurança começaram a atirar em nós como se estivéssemos queimando o Iraque inteiro", disse um manifestante que testemunhou a queima do consulado e pediu para que não fosse identificado.

Outro manifestante, Ali, descreveu o ataque ao consulado como "um ato corajoso e uma reação do povo iraquiano". "Não queremos os iranianos."

Ele previu que a violência deve aumentar: "Haverá vingança do Irã, tenho certeza. Eles ainda estão aqui e as forças de segurança continuarão atirando em nós", afirmou.

Até agora, as autoridades têm sido inflexíveis em resposta à agitação, matando centenas de manifestantes com munição real e usando gás lacrimogêneo para dispersar os movimentos, ao mesmo tempo em que as propostas de reforma política apresentadas são consideradas apenas triviais e cosméticas pela população.

Até agora, o primeiro-ministro Adil Abdul-Mahdi rejeitou os pedidos de renúncia, depois de reuniões com políticos do alto escalão que antes se reuniram com o comandante da Força Quds da Guarda Revolucionária do Irã, a unidade de elite que comanda seus aliados da milícia no exterior.

'Cortar as maõs'

Em uma declaração que sugeria que mais violência estava por vir, o comandante militar das Forças de Mobilização Popular (PMF), organização que reúne grupos paramilitares cujas facções mais poderosas são aliadas do Irã, sugeriu que os distúrbios noturnos em Najaf eram uma ameaça para o clérigo xiita aiatolá Ali Sistani.

"Os combatentes paramilitares usarão força total contra qualquer um que ameaçar Sistani", disse o comandante Abu Mahdi al-Muhandis Said em comunicado divulgado no site do PMF. "Vamos cortar a mão de quem tentar chegar perto de Sistani."

Fanar Haddad, pesquisador sênior do Instituto do Oriente Médio da Universidade Nacional de Cingapura, disse que o governo e seus aliados paramilitares podem usar o incidente do consulado para justificar uma resposta firme.

"(O ataque ao consulado) envia uma mensagem ao Irã, mas também funciona em benefício de pessoas como Muhandis", disse ele. Para o especialista, os paramilitares poderiam usar o incidente como "um pretexto para reprimir e enquadrar o que aconteceu como uma ameaça contra Sistani".

O próprio Sistani parecia apoiar os manifestantes desde o início da agitação, pedindo aos políticos que atendam às demandas populares de reforma.

As autoridades montaram "células de crise" em várias províncias para tentar restaurar a ordem, segundo uma declaração militar desta quinta-feira. Essas células são lideradas por governadores provinciais, mas incluiriam líderes militares que se encarregariam das forças de segurança locais.

Reforma total e disputa ideológica

Os manifestantes consideram que o sistema político instaurado pelos americanos, que derrubaram o regime de Saddam Hussein na invasão de 2003, está esgotado.

Eles criticam sobretudo a influência crescente do Irã e de seu poderoso emissário para assuntos iraquianos, o general Qassem Soleimani, encarregado das operações no exterior do exército ideológico da República Islâmica.

Os iraquianos querem uma reforma profunda do sistema político e a renovação total da classe política, considerada corrupta e inepta. Oficialmente, € 410 bilhões foram desviados em 16 anos, o que representa duas vezes o PIB do país.

Os dois países com maior influência no Iraque, Estados Unidos e Irã, mantêm uma batalha de influência no Oriente Médio, mas Teerã assumiu a dianteira, enquanto Washington está se retirando da disputa.

A vida no país está quase paralisada. No sul, as escolas permanecem fechadas há semanas e os prédios públicos exibem cartazes com a frase "fechado por ordem do povo".

Nas ruas e estradas, os manifestantes queimam pneus para bloquear o transporte de petróleo, em uma tentativa de afetar a fonte de receitas do governo.

Mas até o momento não conseguiram prejudicar a produção e distribuição de petróleo, que representa 95% do faturamento do governo, que está altamente endividado. / REUTERS e AFP

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