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Polícia do Panamá detém e interroga ativistas cubanos às vésperas de cúpula

Dissidentes cubanos e uma ativista argentina disseram ter sido interrogados e ameaçados por agentes de segurança do Panamá ao desembarcar no país no fim de semana para encontros oficiais da sociedade civil no âmbito da 7.ª Cúpula das Américas.

CLÁUDIA TREVISAN, CORRESPONDENTE / WASHINGTON, O Estado de S.Paulo

07 de abril de 2015 | 02h06

Entre eles, estava Rosa María Payá, uma das principais críticas do governo de Raúl Castro, que pela primeira vez participará da reunião de líderes do continente. Em entrevista por telefone ao Estado, Rosa María disse ter sido avisada de que seria deportada caso provocasse "distúrbios" durante o evento. Segundo a ativista, agentes de segurança a abordaram na saída do avião. "Eles tinham um papel com o meu nome e checaram a identidade de todos os passageiros, até que me encontraram", observou.

Ela foi levada a uma sala do aeroporto de Tocumén, onde seus pertences foram revistados. Os agentes também tomaram seu celular e a agenda onde carrega anotações pessoais (os bens foram devolvidos antes de sua liberação). A ativista atribui a detenção à influência de Havana. "O que aconteceu está relacionado à segurança do Estado cubano", afirmou.

O Ministério das Relações Exteriores do Panamá divulgou nota na qual se desculpou pelo incidente e o atribuiu a um "erro burocrático". Rosa María disse que não se tratou de um equívoco e os agentes sabiam quem ela era no momento em que a detiveram. "Li tudo o que você escreveu e tudo o que escreveram sobre você, o agente disse", publicou a ativista no Twitter.

Rosa María, filha de Osvaldo Payá, opositor morto em 2012, e os outros dissidentes cubanos estão no Panamá para participar do Fórum de Jovens e da Cúpula da Sociedade Civil, que ocorrem em paralelo ao encontro de chefes de Estado. Os eventos são oficiais e os ativistas foram credenciados pelos organizadores panamenhos e a OEA. É a primeira vez em que representantes de organizações cubanas estarão nas discussões que antecedem a Cúpula das Américas, marcada para o fim da semana.

No sábado, um grupo de três jovens cubanos, dois costa-riquenhos e uma argentina já haviam sido detidos, interrogados e ameaçados por agentes de segurança panamenhos no aeroporto Tocumén. Kirenia Yalit, da Mesa de Diálogo da Juventude Cubana, disse ao Estado que os seis vinham da Costa Rica, onde haviam participado de encontro da Rede Latino-Americana de Jovens para a Democracia.

O que começou como um questionamento migratório de rotina logo se transformou em um interrogatório sobre suas atividades no Panamá, lembrou. Segundo Yalit, os agentes disseram à argentina Micaela Hierro Dori, coordenadora da Rede Latino-Americana de Jovens para a Democracia, que eles seriam deportados caso causassem problemas durante a cúpula.

Yalit disse estar convencida de que a ação dos agentes foi provocada por "denúncias" feitas por simpatizantes do governo de Havana. "Somos chamados de mercenários e de comprados pelo império. Não nos reconhecem como jovens que querem lutar pela democracia em nosso país", observou. Ao Estado, Yalit disse estar preocupada com eventuais "provocações", durante a cúpula, de pessoas ligadas aos governos de Cuba e da Venezuela.

Oreste del Río Sandoval, diretor-geral de Relações Econômicas da chancelaria, afirmou que os episódios não se repetirão. Ontem ele se reuniu com Rosa María e Dori, a quem pediu desculpas em nome do governo.

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