Polícia do Zimbábue prende mais de 200 em sede da oposição

A 2 dias do 2.º turno das eleições, mais oposicionistas são presos; 100 militantes já foram mortos, diz oposição

Efe,

25 de junho de 2008 | 15h54

A polícia do Zimbábue deteve nesta quarta-feira, 25, mais de 200 pessoas em uma sede do partido opositor Movimento para a Mudança Democrática (MDC), a dois dias do segundo turno das eleições presidenciais no país. A maioria dos detidos é de partidários do MDC que buscavam refúgio no edifício do partido para escapar dos violentos ataques das milícias da União Nacional Africana do Zimbábue-Frente Patriótica (Zanu-PF) do presidente, Robert Mugabe.  Veja também:'Fico na embaixada enquanto for necessário' diz TsvangiraiOpositor pede intervenção de tropas da ONU no ZimbábueElizabeth II revoga título de cavaleiro de MugabeTsvangirai: de líder sindical a inimigo do regime Mugabe, ditador do Zimbábue há quase 30 anos Mugabe se apresentará como candidato único na eleição de sexta-feira após a retirada do líder do MDC, Morgan Tsvangirai, da disputa eleitoral. Tsvangirai disse estar se retirando da disputa presidencial devido aos ataques e à intimidação contra seus partidários em todo o país. O porta-voz oficial do MDC, Nelson Chamisa, disse que dez policiais armados inspecionaram o edifício do MDC e detiveram 200 pessoas, inclusive membros da equipe administrativa da sede. "Entre os detidos há mulheres grávidas e mães com filhos de pouca idade que buscavam refúgio. Suas casas foram incendiadas e algumas delas chegaram a apanhar", acrescentou Chamisa. A Polícia disse que seus soldados tinham invadido a sede do MDC buscando os "culpados pela violência iniciada no Zimbábue." "Não podemos precisar quantas pessoas foram detidas, mas todas são suspeitas de terem cometido crimes no campo", disse o porta-voz da Polícia, Wayne Bvudzijena. A batida policial foi a terceira realizada nos últimos quatro dias pelas forças de segurança zimbabuanas contra sedes do MDC. Durante a campanha eleitoral, os integrantes do movimento tiveram suas manifestações públicas sistemática e violentamente interrompidas por grupos armados liderados por veteranos da guerra de independência do Zimbábue. Segundo o MDC, quase 100 de seus seguidores foram assassinados por grupos armados da Zanu-PF, centenas estão presos por participar da campanha de Tsvangirai e milhares tiveram que fugir de seus lugares de origem para não se tornarem vítimas da violência política empreendida pelo partido governamental. Quando Tsvangirai anunciou pela primeira vez, no domingo passado, que estava se retirando das eleições, explicou que participar do pleito significaria "agressões físicas e até a morte para os partidários do MDC." O Conselho de Segurança das Nações Unidas condenou, na segunda-feira, a campanha de violência realizada contra a oposição zimbabuana e advertiu que estas ações impedem a realização de eleições presidenciais "livres e justas." O governo confirmou na terça que irá adiante com o segundo turno das eleições presidenciais, apesar de o MDC ter retirado formalmente a candidatura de Tsvangirai, o que permitirá que Mugabe permaneça no poder. Mugabe, de 84 anos, que governa ininterruptamente o Zimbábue desde sua independência do Reino Unido, em 1980, jurou que o MDC nunca conseguirá a presidência enquanto ele e os que lutaram pela libertação zimbabuana estiverem vivos. Na semana passada, ele ainda afirmou que "só Deus" poderia retirá-lo do cargo. 'Só Deus me tira do poder' "Só Deus, que me designou, vai me retirar, não o MDC ou os britânicos", disse Mugabe durante uma manifestação da Zanu-PF. Tsvangirai admitiu hoje que a melhor maneira de tirar o Zimbábue da crise é chegar a um acordo negociado com o governo, mas que isso não será possível enquanto este último não liberte todos os prisioneiros políticos. "Um acordo político negociado, que permita começar um processo de reconciliação nacional, reconstrução econômica, o fornecimento de assistência humanitária e a democratização, é o melhor para o país, mas não podemos negociar enquanto o governo mantiver na prisão cerca de dois mil prisioneiros políticos", disse Tsvangirai. O dirigente opositor zimbabuano fez estas declarações durante uma entrevista coletiva realizada em sua casa de Harare pouco após sair da embaixada holandesa nesta capital, onde estava refugiado desde domingo passado e para onde retornou pouco após seu encontro com a imprensa. "Todos os prisioneiros políticos, inclusive nosso secretário-geral, Tendai Biti, devem ser libertados imediatamente, caso contrário não haverá negociações" com o governo, assegurou Tsvangirai. O líder do MDC defendeu que um eventual processo de transição deveria ser dirigido pela União Africana (UA) e respaldado pelas Nações Unidas, caso realmente desejem retirar o Zimbábue da cultura de violência em que está imerso desde o início do século.

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