Polícia espanhola detém Isabelita Perón em Madrid

A polícia espanhola deteve em sua casa nesta sexta-feira a ex-presidente argentina María Estela Martínez, de 75 anos, viúva do líder populista Juan Perón. Isabelita Perón, como ficou conhecida, estava em sua casa em um rico subúrbio de Madrid, onde vive exilada desde 1981.A detenção foi acatada pelas autoridades espanholas depois do envio, por meio da Interpol, de uma ordem de prisão expedida por um juiz argentino. A ex-presidente está sendo investigada pela suposta conexão com o desaparecimento de um militante de esquerda um mês antes do golpe militar que a retirou do poder em 1976. A ordem de detenção se baseia na assinatura de três decretos presidenciais de 1975 que abriram as postas para que as Forças Armadas argentinas aniquilassem "elementos subversivos", informou a agência de notícias EFE. O juiz argentino Raul Acosta, que investiga o caso, disse que irá interrogar a ex-presidente sobre os 20 conturbados meses em que ela esteve no poder, um período marcado pela violência promovida pela direita e que conduziu o país a um dos mais sangrentos regimes militares da América do Sul.Isabelita foi levada pelas autoridades à Corte Nacional, onde conheceu o motivo de sua detenção por meio de um juiz espanhol.Sobre a ordem de prisão, o governo argentino manifestou-se nesta sexta-feira dizendo que "não haverá pactos de impunidade" para os casos de terrorismo de Estado praticados durante a gestão da viúva do ex-líder argentino. Morto em 1974, Juan Perón continua sendo uma das figuras mais influentes na política argentina, e foi o fundador do Partido Justicialista, do hoje presidente Néstor Kirchner. "Nós queremos reconciliação, mas com verdade e sem impunidade. Por isso, temos que conhecer a verdade, seja ela qual for. E não deve haver impunidade a ninguém", disse Kirchner após ficar sabendo da ordem de detenção.Terrorismo de EstadoAcosta investiga o paradeiro de Héctor Aldo Fagetti, um jovem de 24 anos desaparecido no dia 25 de fevereiro de 1976, um mês antes do golpe militar que derrubou Isabelita. De acordo com dados da Justiça argentina, mais de 600 denúncias de desaparecimentos foram registradas antes da derrocada de Isabelita.Segundo o juiz, o desaparecimento foi possível graças aos decretos de 1975, assinados durante o governo de Isabelita. A legislação permitiu que as forças de segurança "aniquilassem" elementos subversivos.Kirchner, por sua vez, apoio o ato, argumentando que "se os juízes entendem que houve terrorismo de Estado desde antes do golpe militar de 1976, seus responsáveis também deverão ser julgados.Já o ministro do Interior argentino, Aníbal Fernández, assinalou que não haverá "pacto de impunidade", acrescentando que Isabelita "deverá comparecer, porque é assim que deve ser pelas provas apresentadas".Os três polêmicos decretos foram assinados pelo então titular do Senado, Ítalo Luder, que estava exercendo a presidência durante uma breve licença médica tirada por Isabelita. Segundo Acosta, entretanto, embora não tenha assinado os decretos, a ex-presidente "era a primeira magistrado do país, e a comandante em chefe das Forças Armadas". Por isso, acrescentou o juiz, "a maior responsabilidade recai sobre ela"."Triple A"Paralelamente a esse caso, outro juiz argentino, Noberto Oyarbide, está examinando a possibilidade de citar Isabelita em inquérito de crimes contra a humanidade cometidos pela "Aliança Anticomunista Argentina". O grupo, também conhecido por "Triple A", foi criado em 1973 por José López Rega, que foi ministro de Bem-Estar Social durante o governo da ex-presidente.A dúvida agora é se não foi o próprio general Juan Domingo Perón uma dos principais avalista da repressão ilegal durante seu terceiro mandato, iniciado em 1973 continuado por sua mulher após a sua morte, em 1 de julho de 1974.Texto ampliado às 20h05

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