REUTERS/Marcos Brindicci
REUTERS/Marcos Brindicci

Polícia faz buscas em propriedades de Cristina Kirchner

Ex-presidente argentina diz ser alvo de perseguição de magistrado, que investiga pagamentos de propina por meio de ‘aluguéis fantasmas’

Rodrigo Cavalheiro, Correspondente / Buenos Aires, O Estado de S. Paulo

30 Junho 2016 | 17h06

A Justiça argentina ordenou ontem uma operação de buscas em imóveis da ex-presidente Cristina Kirchner, em um inquérito que investiga pagamentos de propina disfarçados como aluguéis. Sua reação enfurecida com uma sequência de tuítes foi ofuscada no fim da tarde pela ordem de um tribunal de segunda instância que determinou celeridade na apuração de corrupção na concessão de obras públicas.

O dia ruim para a ex-governante começou com uma série de dez operações ordenadas pelo juiz Claudio Bonadio em propriedades da empresa imobiliária Los Sauces, da família Kirchner, nas cidades de Río Gallegos, El Calafate e El Chaltén, na Província de Santa Cruz, sul do país. Entre eles, está a imobiliária em que Máximo, filho da ex-presidente trabalha. 

No chamado caso Los Sauces, a Justiça apura possível enriquecimento ilícito e falsificação de documentos pela ex-presidente. Investigadores averiguam se ela operou em favor dos empresários Lázaro Báez, preso desde abril, e Cristóbal López, investigado por sonegação, em contratos públicos. Em troca, eles alugariam por altos montantes imóveis pertencentes aos Kirchners. Entre as irregularidades apontadas na denúncia, estão o registro de um domicílio fictício para a empresa, a ausência de declaração de imóveis perante os organismos tributários e a falsificação de documentos relacionados à compra e venda de propriedades.

Cristina alega que o juiz Bonadio não tem neutralidade para levar adiante a investigação. Ela conseguiu afastá-lo da condução do caso Hotesur, sobre a suspeita de que quartos de hotéis da família tiveram ocupação completa apenas no papel, em um esquema para lavar dinheiro. Bonadio ordenou operação semelhante contra imóveis da família quando Cristina ainda era presidente, um ano atrás. Ela viu a medida como um ataque pessoal e ironizou a ação, dizendo que Bonadio só não havia mandado vasculhar a festa de aniversário de seu neto Néstor Ivan. 

Cristina conseguiu removê-lo do caso porque o juiz usou na operação policiais metropolitanos, subordinados ao então prefeito de Buenos Aires, Mauricio Macri. Entre outras punições ligadas a suas denúncias contra o kirchnerismo, Bonadio enfrentou um corte de salário de 30%.

Cristina se diz perseguida. “Fazia tempo que eu não via um abuso de poder como este. Um dos inquilinos teve a porta destruída a patadas”, tuitou a política, que tem acumulado deserções no Congresso. Ela atacou os meios que cobriam a operação, acusando-os de ter informação privilegiada e atacou seu sucessor. “Alguém sabe se a casa do presidente e seus parentes, todos envolvidos no Panama Papers, foram revistadas?”, questionou. Macri é investigado por ter aparecido com o diretor de empresas offshores em paraísos fiscais. 

Tribunal. Enquanto Cristina protestava contra a ação da Justiça, uma decisão de um tribunal de segunda instância colocou ainda mais pressão em uma terceira investigação contra ela, citando pela primeira vez suspeitas de desvios em obras públicas durante seu governo. 

O documento divulgado pela Câmara Federal ordenou ao juiz Sebastian Casanello “avançar sem mais demora sobre as suspeitas que envolvem as mais altas autoridades do Executivo anterior, o Ministério do Planejamento e a secretaria de Obras Públicas”. “É uma ordem fortíssima, pois impede o juiz Casanello de atrasar a investigação ou levá-la para outro lado. Não é uma mera recomendação, evita que a causa não dê em nada”, explica Martín Bohmrer, professor de direito da Universidade de Buenos Aires. Casanello não teve uma atividade intensa durante o kirchnerismo.

A referência do tribunal é direta ao escândalo envolvendo José López, titular da pasta de obras públicas kirchnerista, flagrado enquanto jogava US$ 8,9 milhões em sacolas sobre o muro de um convento na grande Buenos Aires. Ele estava subordinado diretamente a Júlio De Vido, ministro do Planejamento. Ambos participaram dos governos de Néstor Kirchner (2003-2007) e Cristina (2007-2015).

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