AFP / PHILIPPE HUGUEN
AFP / PHILIPPE HUGUEN

Polícia inicia demolição de acampamento de imigrantes em Calais, na França

Zona sul da 'selva', como local é chamado, começou a ser desmontada nesta segunda-feira; polícia de choque isola a área

Andrei Netto, ENVIADO ESPECIAL / CALAIS, O Estado de S. Paulo

29 de fevereiro de 2016 | 10h29

CALAIS, FRANÇA - A polícia da França começou a desmontar nesta segunda-feira, 29, parte da "selva", a favela de imigrantes que se situa em Calais, no norte do país. A iniciativa já havia sido antecipada pelo Ministério do Interior, mas não havia sido fixada uma data para a retirada das pessoas. Com a autorização do Tribunal Administrativo de Lille, agentes das tropas de choque isolaram a área nesta manhã, enquanto grupos de trabalho da prefeitura da região de Pas-de-Calais fazem o desmonte dos barracos.

Na região vivem entre 800 e mil imigrantes, segundo o Ministério do Interior, e mais de 3 mil, segundo organizações não governamentais. Eles receberam como opção a mudança para o Centro de Acolhimento Provisório (CAP), estrutura cercada e monitorada por seguranças construída em uma área contígua, ou a transferência para um dos centros de atenção a imigrantes espalhados por 70 cidades da França. Caso optem pela segunda opção, os estrangeiros precisam abrir mão do sonho de atravessar o Canal da Mancha e se instalar na Grã-Bretanha, aceitando formalizar um pedido de refúgio na França.

Pela manhã, as primeiras áreas foram desmontadas sem a resistência dos imigrantes. Não houve choques entre a polícia e os estrangeiros, nem com representantes de organizações não governamentais. Mas a iniciativa enfrenta a resistência das associações, que acionaram na sexta-feira 26 o Conselho de Estado, mais alta instância jurídica da França, para tentar anular a decisão do tribunal de Lille. 

No terreno, as ONGs estão insatisfeitas. "Este campo não foi criado pelos refugiados, mas pela administração pública que forçou os refugiados a se concentrarem aqui", acusa o frei belga Johannes Maertens, da ONG Socorro Católico. Nesse local, diz o religioso, nasceu em um ano um grande senso de comunidade e cooperação, que agora está sendo destruído. "Como alternativa o governo oferece uma prisão, que é como o centro de acolhimento é visto pela maioria dos refugiados. Um contêiner não é para seres humanos, é para animais", reclama Maertens.

Uma das grandes queixas das ONGs é que o centro de acolhimento tem mais de 200 vagas disponíveis, longe do mínimo necessário para acomodar os desalojados. Outra reclamação é que a França e a Grã-Bretanha não oferecem aos imigrantes uma opção legal para que eles possam requisitar o refúgio em solo britânico, como eles desejam. "A França pode recolher esses pedidos de refúgio, mas as informações são transmitidas à Grã-Bretanha e nada acontece. O resultado é nulo", diz Maertens.

Na mesma área sul da selva de Calais vivem pelo menos 305 crianças "isoladas", ou seja, desacompanhadas de pai, mãe ou responsável. Além delas, dois núcleos de mulheres também foram montados em meio à favela para garantir maior segurança. O Ministério do Interior garante que mulheres e crianças terão vagas garantidas no sistema de acolhimento da França, mas o risco permanece. Segundo dados de ONGs, em 2015 pelo menos 10 mil crianças desapareceram em meio à onda imigratória na Europa. 

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