Polícia irlandesa investiga assassinato de ex-espião

A polícia irlandesa (Garda) investiga o assassinato de Denis Donaldson, ex-membro do Sinn Féin e espião dos serviços secretos britânicos, cujo corpo foi encontrado na terça-feira com marcas de tiro na cabeça e sinais de tortura. A Garda isolou a cabana onde o corpo de Donaldson foi encontrado, um refúgio situado em Glenties, no condado de Donegal, no noroeste do país, uma das regiões mais remotas da República da Irlanda. Segundo fontes policiais, agentes da Equipe Técnica da Garda (GTB) vasculham a região em busca de evidências forenses que permitam identificar os autores do assassinato. A imprensa irlandesa afirma nesta quarta-feira que a polícia encontrou dois cartuchos de bala junto ao corpo da vítima e que o braço direito de Donaldson estava todo cortado, o que sugere que ele pode ter sido torturado antes de morrer. Sua morte lembra os brutais métodos seguidos pelo Exército Republicano Irlandês (IRA) no passado para punir delatores, que eram executados imediatamente após fazer alguma confissão. Donaldson, de 56 anos, admitiu em 16 de dezembro de 2005 que foi agente secreto do governo do Reino Unido durante mais de duas décadas e informante para a Brigada Especial da Polícia norte-irlandesa. Uma semana antes, Donaldson tinha sido absolvido das acusações apresentadas contra ele por supostamente estar vinculado a uma rede de espionagem do IRA no Castelo de Stormont, sede da Assembléia do Ulster, incidente que levou à suspensão da autonomia da província em outubro de 2002. Em sua confissão, o espião assegurou que seus últimos contatos com a Brigada Especial foram um dia antes de revelar publicamente sua verdadeira identidade e em outubro de 2002, 48 horas antes de ser detido por suas supostas atividades de espionagem em Stormont, onde era o chefe de administração do Sinn Féin. Os republicanos asseguraram que Donaldson revelou sua identidade por iniciativa própria porque sabia que os serviços secretos estavam a ponto de traí-lo com o propósito de desestabilizar o processo de paz. No entanto, a pergunta que circula nesta quarta-feira por todo o país é quem assassinou o duplo agente, outrora homem de confiança do presidente do Sinn Féin (braço político do IRA), Gerry Adams. Embora alguns, principalmente em círculos unionistas, tenham acusado o IRA, a organização paramilitar negou categoricamente sua participação no crime e Adams desvinculou os "republicanos partidários do processo de paz" do crime. Segundo os analistas, Donaldson pode ter sido assassinado por elementos do IRA incapazes de perdoar sua traição, mas que agiram sem o consentimento da direção do grupo. Outros analistas apontam a membros do IRA descontentes com o cessar-fogo da organização e a estratégia de paz da direção do Sinn Féin. Também não se pode descartar os grupos dissidentes do IRA, como o IRA Autêntico ou o de Continuidade, opostos ao processo de paz e dispostos a enfraquecer os esforços negociadores dos governos britânico e irlandês para restaurar a autonomia do Ulster. Além disso, os nacionalistas-republicanos acreditam que os serviços secretos britânicos, em particular o MI5 (responsável pela segurança nacional), quiseram silenciar um de seus ex-agentes diante da possibilidade de este descobrir outros espiões infiltrados na cúpula republicana. O certo é que a violência não desapareceu do panorama político da Irlanda do Norte e as conseqüências deste assassinato para o processo de pacificação são imprevisíveis. Os primeiros-ministros da Irlanda e do Reino Unido, Bertie Ahern e Tony Blair, respectivamente, apresentarão na quinta-feira em Armagh, ao sul do Ulster, um plano destinado a facilitar nos próximos meses a assinatura de um pacto de governabilidade entre o majoritário Partido Democrático Unionista (DUP), do reverendo Ian Paisley, e o Sinn Féin, segundo partido da província. Ahern assegurou nesta quarta-feira ao Parlamento irlandês que a polícia nacional alertou o ex-espião de que sua vida estava em perigo. O primeiro-ministro explicou que a Garda entrou em contato com Donaldson logo após saber do seu paradeiro, em janeiro, mas precisou que em nenhum momento a vítima solicitou proteção policial. "A Garda o visitou e advertiu que, dadas as circunstâncias, sua vida podia correr perigo. Também lhe deram conselhos sobre segurança pessoal e deram a ele o número do telefone da delegacia de Glenties caso tivesse alguma preocupação", afirmou Ahern. Fontes oficiais confirmaram que Ahern e Blair viajarão nesta quinta-feira ao condado de Armagh para anunciar sua proposta de restauração da Assembléia autônoma norte-irlandesa. O ministro britânico para a província, Peter Hain, assegurou nesta quarta-feira que a morte de Donaldson "não pode ser usada para se desviar" do caminho traçado por Londres e Dublin. "Se permitíssemos o fracasso do processo de paz, estaríamos cedendo diante da violência, neste caso, diante de um crime repugnante que, talvez, foi cometido para dificultar deliberadamente o progresso político", disse Hain. Até agora, os esforços negociadores se chocaram com a oposição do DUP, que sustenta que o movimento republicano continua envolvido em atividades paramilitares e no crime organizado.

Agencia Estado,

05 Abril 2006 | 10h00

Encontrou algum erro? Entre em contato

publicidade

publicidade

publicidade

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.