JACK GUEZ / AFP
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Polícia israelense usou o spyware Pegasus para espionar rivais de Netanyahu

O software do grupo israelense NSO concede acesso total ao celular de uma pessoa, incluindo comunicações em tempo real, e está no centro de uma polêmica por seu uso abusivo por alguns governos estrangeiros

Redação, O Estado de S.Paulo

18 de janeiro de 2022 | 20h00

JERUSALÉM - Legisladores israelenses pediram nesta terça-feira, 18, a abertura de um inquérito parlamentar sobre o suposto uso do sofisticado spyware Pegasus pela polícia contra cidadãos do país, incluindo manifestantes contrários ao ex-primeiro-ministro Binyamin Netanyahu. A informação sobre a espionagem foi revelada pelo jornal financeiro Calcalist. O Pegasus concede acesso total ao celular de uma pessoa, incluindo comunicações em tempo real.

O Parlamento de Israel (Knesset) vai buscar uma explicação da polícia sobre o uso do spyware criado pelo grupo israelense NSO - que agora está na lista negra do governo dos EUA - desde 2013. Segundo o jornal Calcalist, a polícia usa o programa contra alvos às vezes sem os mandados judiciais necessários.

O relatório acrescentou um novo ângulo doméstico à pressão global sobre Israel após alegações de que o Pegasus teve uso abusivo por alguns governos clientes estrangeiros para espionar ativistas de direitos humanos, jornalistas e políticos.

Israel, que regula a empresa, não disse se suas próprias forças de segurança usam o spyware. A reportagem, que não citou nenhum funcionário atual ou do governo anterior, polícia ou NSO  corroborando as alegações, se referiu a oito supostos exemplos de unidade de inteligência secreta da polícia empregando o Pegasus para vigiar cidadãos israelenses, incluindo telefones hackeados de um suspeito de assassinato e oponentes da Parada do Orgulho de Jerusalém. O relatório não nomeou nenhuma das pessoas cujos telefones foram supostamente hackeados pela polícia.

A polícia israelense negou as acusações, dizendo em um comunicado que opera de acordo com a lei. No comunicado, ela negou ter usado o spyware contra, entre outros, líderes do chamado Black Flag que organizou os protestos no ano passado que exigiram a renúncia do então primeiro-ministro Binyamin Netanyahu, que está sendo julgado por acusações de corrupção que ele nega. O porta-voz Roee Neuman disse que os líderes do protesto só souberam da vigilância digital após a publicação do relatório.

O ministro da Segurança Pública, Omer Barlev, cujo departamento supervisiona a polícia, tuitou que verificaria se a polícia recebeu autorização explícita de um juiz para usar o spyware.

No noticiário do Canal 12 de Israel, a legisladora Meirav Ben Ari disse que a Comissão Parlamentar de Segurança Pública, que ela preside, se reunirá na próxima semana para questionar a polícia sobre a reportagem do Calcalista.

"Muitos membros do Parlamento me abordaram hoje. Este é um incidente muito perturbador, levantando preocupações sobre a violação da privacidade e da democracia como um todo", disse Ben Ari. "A polícia, como faz sempre que vem às minhas audiências, vai explicar."

A NSO disse que não poderia confirmar ou negar nenhum cliente existente ou potencial. Ele disse que não opera o sistema uma vez vendido a seus clientes governamentais nem está envolvido de forma alguma na sua operação. "NSO vende seus produtos sob licença e regulamentação para agências de inteligência e aplicação da lei para prevenir o terrorismo e o crime sob ordens judiciais e as leis locais de seus países", afirmou.

Sanções e processos 

No mês passado, um grupo de legisladores dos EUA pediu ao Departamento do Tesouro e ao Departamento de Estado que impusessem sanções ao NSO e três outras empresas estrangeiras de vigilância que, segundo eles, ajudaram governos autoritários a cometer abusos de direitos humanos. O sofisticado spyware tem sido associado à espionagem de ativistas, jornalistas e políticos, da Arábia Saudita ao México.

Em novembro, a Apple processou o NSO, dizendo que violou as leis dos EUA ao invadir o software instalado nos iPhones. O NSO também enfrentou ações legais ou críticas da Microsoft Corp, do Facebook, Meta Platforms Inc. , Alphabet Inc e Cisco Systems Inc./REUTERS e AP

 

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