Polícia liga último ataque a atirador de Washington

Exames de balística confirmaram hoje que a bala que matou o motorista de ônibus Conrad Johnson, na manhã de ontem, foi disparada pela mesma arma que fez as doze outras vítimas do franco-atirador que semeia o terror na região metropolitana de Washington, há três semanas. Apenas três pessoas sobreviveram aos ataques. Paralelamente, a polícia passou a considerar a hipótese de o assassino em série ser um imigrante.Na noite de ontem, mais de 13 horas depois do assassinato de Johnson - a décima vítima fatal dos ataques -, o chefe da polícia do condado de Montgomery, Charles Moose, dirigiu uma mensagem ao criminoso."Nos últimos dias você tentou comunicar-se conosco", começou Moose, falando às câmeras de televisão. "Estudamos a opção que você apresentou e concluímos que não é possível, eletronicamente, cumpri-la da maneira que você pediu. Entretanto, permanecemos abertos e prontos a conversar com você sobre as opções que mencionou. É importante que façamos isso sem que ninguém mais e machuque", continuou o chefe da polícia, num pedido velado para que o franco-atirador cesse os ataques."Ligue para o mesmo número de antes. Se preferir, pode-se fornecer uma caixa postal particular ou outro método seguro (de comunicação). Você indicou que isso (os ataques) é sobre mais do que violência. Aguardamos seu contato."O apelo de Moose foi a quinta tentativa de comunicação feita num período de 48 horas com o misterioso assassino. O estranho diálogo entre o chefe da polícia de Montgomery com o matador que transformou uma das áreas metropolitanas mais policiadas do planeta num lugar onde as pessoas têm medo de sair de casa e mandar seus filhos à escola começou com uma mensagem encontrada no sábado, dentro de um envelope lacrado e embrulhado num plástico, na borda de um bosque contíguo ao estacionamento do restaurante Ponderosa, em Virginia, cerca de 130 quilômetros ao sul de Washington, onde ocorreu o ataque anterior ao da terça-feira.Manuscrita, em letra de forma, em papel pautado, e contendo frases incompletas e erros de ortografia, a carta, de pelo menos três páginas, estabelecia a segunda-feira como prazo para o depósito de US$ 10 milhões numa conta bancária, disseram fontes oficiais que leram cópias do documento.Os erros de inglês podem indicar que o franco-atirador não é americano. Moose alimentou hoje especulações nesse sentido, fazendo um apelo às comunidades de imigrantes da área de Washington para que ajudem nas investigações."Problemas de imigração não devem desencorajar ninguém" a entrar em contato a polícia para passar informações sobre o franco-atirador, disse ele.Em tom raivoso, o autor queixava-se da atitude da polícia, que teria ignorado meia dúzia de chamadas feitas ao centro de comando da polícia de Montgomery, em Rockville, e ao FBI. "Isso foi incompetência" e "cinco pessoas tiveram que morrer" por causa disso.A carta advertia que se as autoridades estivessem mais interessadas em parar com as mortes do que em prender o responsável, elas deveriam seguir as instruções à risca ou haveria mais "body bags", uma referência aos sacos plásticos usados para transportar os mortos. Num "post scriptum", o autor da mensagem avisava, também, que "suas crianças não estão a salvo em nenhum lugar e em nenhuma hora".A mensagem incluía também a frase "eu sou Deus", idêntica à que foi deixada numa carta de tarô encontrada no local do ataque contra um estudante de 13 anos na cidade de Bowie, no condado de Prince George, vizinho a Montgomery, há duas semanas.Uma fonte policial admitiu ao jornal The Washington Post que a polícia não conseguiu estabelecer contato com o franco-atirador em três tentativas feitas com o número que ele forneceu na carta. Todas fracassaram por dificuldades técnicas. Uma ligação subseqüente foi completada, mas acabou sendo ignorada por uma estagiária do FBI, que atendeu e não compreendeu a importância da chamada.De acordo com um policial, a pessoa deixou uma mensagem gravada no número indicado. Sua voz era de alguém extremamente contrariado e enfurecido. Ela parecia ter sido abafada de propósito. Mesmo assim, o exame da gravação feito num laboratório do FBI conseguiu detectar frases como "cale a boca e escute", "eu sou Deus" e "eu estou no controle (da situação)".A demora entre a descoberta da carta, no sábado, e o primeiro apelo de Moose a seu autor, na noite do domingo, deveu-se ao trabalho de perícia que a polícia fez na embalagem e no envelope da carta, em busca de pistas, antes de abri-la.As mensagens do chefe da polícia de Montgomery ao misterioso franco-atirador foram preparadas com a ajuda de agentes do FBI especializados no estudo do perfil de criminosos.As mensagens enviadas ao criminoso pela televisão e o que foi dito sobre ele por jornalistas das redes nacionais e das emissoras locais parecem ter exacerbado seu desejo de controlar a situação de pânico que criou, comprovando os erros dos que tentavam decifrar sua identidade, perfil ou motivos.Até o sétimo ataque, todas as vítimas tinham sido adultos. A oitava vítima foi um menino de 13 anos, que ficou gravemente ferido. O ataque contra o estudante levou o presidente George W. Bush a chamar o assassino de "covarde". Numa aparente resposta à caracterização feita por Bush, o ataque seguinte aconteceu num posto de gasolina em Virginia, a 40 metros de distância de um agente da polícia rodoviária do Estado.Nos dias que se seguiram aos primeiros 11 ataques, relatos da imprensa repetiram que o franco-atirador parecia não atacar nos fins de semana, observou The New York Times. A 12ª vítima foi um homem no estacionamento do restaurante Ponderosa, na noite de sábado."O jogo (do franco-atirador) é exercer controle", disse ao Times o doutor Reid Meloy, professor de psiquiatria clínica e especialista em comportamento psicopata na Universidade da Califórnia em San Diego. "Uma das coisas que sabemos sobre psicopatas é que eles querem dominar e controlar", disse Reid, que estudou assassinos em série para escrever o livro "The Psychopathic Mind" ("A Mente do Psicopata"). "Neste caso, além da submissão das vítimas, o franco-atirador está manipulando a polícia e a imprensa. Quando ele é bem-sucedido, é tomado por um sentimento de que é especial, de que tem poderes e grandiosidade. É difícil superestimar o quanto isso é gratificante é para um psicopata."Para Meloy, o homem que aterroriza Washington já passou do ponto em que poderia negociar com a polícia, e usa as negociações apenas como veículo de afirmação de seu controle sobre a situação. Sob crescente pressão da população para remover a ameaça e garantir a volta da normalidade, as autoridades tentam desesperadamente usar as comunicações com o criminoso e as pistas que ele deixa para impedi-lo de atacar outra vez.

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