Polícia mata atirador de escola judaica na França e busca possíveis cúmplices

Unidades de elite da polícia da França encerraram ontem 32 horas de cerco matando o terrorista Mohamed Merah, de 23 anos, autor confesso de três atentados - que tiveram um saldo de sete mortes - na região de Toulouse, sul do país.

ANDREI NETTO, ENVIADO ESPECIAL / TOULOUSE, O Estado de S.Paulo

23 Março 2012 | 03h04

A intervenção ocorreu por ordem direta do Palácio do Eliseu às 11h30 (hora local) e deu origem a uma violenta troca de tiros. O acusado foi morto com um disparo na cabeça. Quando os franceses respiravam aliviados, porém, o grupo extremista islâmico Jund al-Khalifah (Soldados de Califa) reivindicou a autoria dos atentados, fazendo novas ameaças.

A ação que resultou na morte de Merah foi feita por agentes da Raid (sigla em francês para Procura, Assistência, Intervenção, Dissuasão), uma das unidades de elite da polícia francesa. A intervenção foi a alternativa escolhida pelo Ministério do Interior para acabar com o impasse depois que Merah informou, às 22h45 de quarta-feira, que não se entregaria, como havia prometido.

Na madrugada, os policiais detonaram explosivos em janelas e portas, com o objetivo de fragilizar a proteção do terrorista e forçá-lo a se render. Sem reação, os agentes receberam a ordem de invadir o apartamento, situado do distrito de Côte Pavé, um dos mais valorizados de Toulouse.

Uma hora mais tarde a operação teve início. Merah resistiu ao ataque dos policiais durante quase cinco minutos, em meio a um violento tiroteio. Mais de 300 disparos foram feitos e granadas foram usadas.

Segundo o ministro do Interior, Claude Guéant, os agentes invadiram cada um dos cômodos do apartamento, sem encontrar o alvo. O terrorista teria se escondido no banheiro. "O atirador saiu disparando com extrema violência. No final, Merah saltou atirando pela janela com uma arma na mão", descreveu o Guéant, falando minutos após a ação.

Três policiais ficaram no tiroteio, mas nenhum com gravidade, segundo as autoridades. De acordo com o procurador de Paris, François Molins, o jovem morreu atingido por um tiro na cabeça. A polícia "fez de tudo para prendê-lo vivo", assegurou. "Foi por isso que a operação durou tanto tempo."

'Eu mato você'. Minutos após a intervenção, a unidade Raid deixou o local do tiroteio e a Rue Sergent-Vigné foi entregue ao Ministério Público, que buscou provas que serão usadas no caso Merah.

Enquanto seu corpo era levado para o Instituto Médico-Legal, o procurador anunciou a localização dos vídeos gravados pelo terrorista durante os ataques. Em um deles, afirmou a autoridade, o atirador afirma a um dos três dos soldados que assassinara: "Você mata os meus irmãos, eu mato você".

De acordo com Molins, com a morte do jovem as investigações se concentrariam na procura de cúmplices e no testemunho dos parentes presos. Um irmão mais velho de Merah, suspeito de oferecer apoio logístico para os ataques, está detido.

Pouco antes das 16 horas, o grupo terrorista islâmico Soldados de Califa divulgou um comunicado em que reivindicava as ações de Merah, a quem chamou de "Youssef, o francês", definindo-o como "um dos cavaleiros do Islã".

"Nós reivindicamos a autoria dessa operação bendita que balançou os pilares sionistas-cruzados no mundo inteiro", dizia o texto, que exortava a França a "reconsiderar sua política em relação aos muçulmanos no mundo" e a "abandonar suas tendências hostis em relação ao Islã", sob pena de enfrentar "infelicidade e destruição".

Segundo especialistas no estudo do Oriente Médio, Os Soldados de Califa são um grupo com sede na fronteira entre Paquistão e Afeganistão responsável por ataques a bases americanas na província afegã de Khost, onde seriam treinados alguns dos militantes estrangeiros da rede Haqqani, ligada à Al-Qaeda. Na quarta-feira, o Ministério do Interior afirmou que Merah havia viajado para o Afeganistão e Waziristão, província do Paquistão, entre 2010 e 2011, com o objetivo de receber treinamento para atos terroristas.

A informação foi atribuída a serviços de inteligência que atuam na região. Ontem, porém, os governos do Afeganistão, do Paquistão e dos Estados Unidos, além da Otan, negaram que tivessem identificado Merah como extremista.

Até a noite de ontem, o Ministério do Interior não havia comentado a reivindicação da autoria dos atentados, nem o desmentido por parte dos governos estrangeiros.

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