Polícia põe em dúvida ameaça em Paris ser islâmica

Carta que alertou sobre explosivos em loja fazia referências nacionalistas, anticapitalistas e sem apelo religioso

Andrei Netto, O Estadao de S.Paulo

18 de dezembro de 2008 | 00h00

A hipótese de que o grupo que ameaçou detonar cinco cargas de dinamite em uma grande loja de departamentos do centro de Paris, na terça-feira, seja uma organização islâmica começa a ser afastada pela polícia e pelos serviços de inteligência da França. Ontem, o ministro da Defesa, Hervé Morin, afirmou que "a pista islâmica não é a prioritária". A maior evidência é a existência da carta de alerta com referências nacionalistas, anticapitalistas e sem apelo religioso. A ameaça de atentado terrorista ocorreu na manhã de terça-feira, na loja de departamentos Printemps Homme, situada no Boulevard Haussmann, no 9º Distrito de Paris. Cinco bananas de dinamite, sem detonador, foram localizadas pela polícia em um banheiro do prédio. A descoberta foi possível graças a uma carta anônima enviada à Agência France Presse, na qual uma suposta Frente Revolucionária Afegã exigia a retirada dos 2,8 mil soldados franceses do Afeganistão. "Nós passaremos à ação nas grandes lojas de capitalistas e desta vez sem adverti-los", afirma o texto, caso a reivindicação não seja atendida até fevereiro. FALSO GRUPOOntem, segundo dia das investigações, cresceram as suspeitas de que a Frente Revolucionária Afegã não exista na realidade. O grupo era desconhecido dos serviços secretos, segundo a ministra do Interior, Michèle Alliot-Marie. Análises realizadas por peritos sobre o conteúdo da carta chamaram a atenção. "É evidente que a fraseologia, a dialética não é a mesma dos movimentos islâmicos", afirmou Morin, em entrevista à rádio RTL. "A palavra ?revolucionário? figurando no nome do grupo, a palavra ?capitalista? para designar a loja, a ausência de referências islâmicas, à jihad (guerra santa), fazem com que a pista islâmica não seja a primeira."Embora a França venha sendo alvo de ameaças de líderes do Taleban, uma das hipóteses estudadas é que o ato de intimidação de terça-feira seja obra de um dos pequenos grupos terroristas que têm atuado no país. Recentemente, os radares de trânsito foram alvo de atentados - praticados por um único homem. Nos últimos meses, a rede de trens de alta velocidade vem sendo depredada. As investigações concentraram-se na análise das imagens de 300 câmeras de vídeo da loja e na agência de correio de onde a carta foi enviada. Mesmo que a origem do grupo não seja islâmica, a vigilância foi reforçada nas maiores cidades do país. Ontem, mais 400 policiais e 200 soldados foram mobilizados em Paris, Marselha, Lyon e Lille. Na capital, eles se somarão aos 1,5 mil homens de um efetivo extra organizado semanas atrás. O reforço permanecerá nas cidades até que o nível de alerta contra terrorismo retorne à normalidade.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.