Miguel Candela/EFE
Miguel Candela/EFE

Polícia prende mais de 300 no 1º dia da lei de segurança de Hong Kong

Manifestações pelo aniversário da devolução do território à China foram menores que em anos anteriores; dissidentes, jornalistas e professores correm para deletar posts e contas nas redes sociais, temendo repressão do governo da China 

Redação, O Estado de S.Paulo

01 de julho de 2020 | 18h43

HONG KONG - A lei de segurança entrou em vigor nesta quarta-feira, 1º, na cidade de Hong Kong. Logo na estreia, a polícia chinesa deteve 370 pessoas, incluindo 10 manifestantes por crimes criados pela nova legislação, que criminalizou a dissidência e as atividades políticas que desafiam o governo da China. Entre os presos está uma menina de 15 anos que agitava uma bandeira que simboliza a autonomia do território. 

Já no primeiro dia a nova lei mostrou eficácia para conter as manifestações anti-China que assolam Hong Kong há mais de um ano. Hoje, no aniversário do retorno do território ao controle chinês – que geralmente é marcado por marchas pró-democracia –, apenas pouco mais de mil manifestantes protestaram, mas foram logo encurralados pela polícia, que conseguiu dispersar rapidamente o protesto com o uso de canhões de água e spray de pimenta.

A polícia saiu às ruas desde as primeiras horas desta quarta-feira para conter a passeata organizada para marcar o 23.º aniversário da devolução de Hong Kong à China pelo Reino Unido. Pela primeira vez, a manifestação tradicionalmente convocada pelos moradores da cidade havia sido proibida pelas autoridades.

A nova lei de segurança, promulgada na terça-feira, permite reprimir quatro tipos de crimes: atividades subversivas, secessão, terrorismo e conluio com forças estrangeiras para colocar em perigo a segurança nacional. Elo com governos estrangeiros ou publicar pontos de vista anti-China podem ser punidos com prisão perpétua.

O alcance é amplo e ameaça as liberdades civis que tornaram Hong Kong tão diferente do restante da China. Enquanto as autoridades em Pequim insistem que a lei afetará apenas um pequeno grupo de infratores, muitos temem que o governo use as definições abrangentes da lei para atingir dissidentes e organizações que defendem a democracia. Por isso, muitos correm contra o tempo para tentar preservar resquícios de autonomia do território.

O Museu do 4 de Junho, sobre o massacre da Praça Tiananmen, em 1989, vem digitalizando seus arquivos, com medo de que seus artefatos possam ser apreendidos. As livrarias passaram a encarar os clientes com desconfiança, temendo que possam ser espiões do governo. Escritores pediram que o site de notícias InMedia HK excluísse mais de 100 artigos, para evitar que posts antigos pudessem ser usados contra eles. Muitos ativistas deletaram suas contas no Twitter e no Telegram.

“Você até pode dizer que a lei visa apenas punir manifestantes e políticos antichineses, mas qualquer um pode ser afetado”, disse Isabella Ng, professora da Universidade de Educação de Hong Kong, que fundou uma instituição de caridade que ajuda refugiados na cidade. “Onde está o limite?”

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Mesmo antes da aprovação da lei, ativistas, jornalistas, donos de livrarias e professores já haviam manifestado interesse em deixar o território. O governo britânico prometeu facilitar a imigração. O chanceler do Reino Unido, Dominic Raab, disse hoje que Londres aceitaria receber moradores de Hong Kong. “Se você ainda não experimentou o que é tirania, esteja preparado, porque a tirania não é confortável”, disse Bao Pu, fundador da New Century Press, uma das poucas editoras independentes da cidade.

A preocupação não se limita a grupos locais. Grandes organizações internacionais também avaliam seu futuro na cidade. A nova lei diz especificamente que o governo apertaria o certo contra ONGs e agências de notícias estrangeiras. “O estado de direito está sob pressão em Hong Kong”, disse Nicholas Bequelin, diretor de operações da Anistia Internacional da Ásia.

A interferência chinesa pode significar também o fim da liberdade de imprensa no território. A Associação de Executivos de Notícias de Hong Kong, que representa os principais veículos de comunicação da cidade, expressou preocupação com os impactos da nova lei.

O Clube dos Correspondentes Estrangeiros pediu que o governo não interfira no trabalho dos repórteres – Pequim não respondeu, embora garanta que as liberdades civis não serão afetadas. “Eu mentiria se dissesse que não penso duas vezes em postar algo no Twitter antes de pressionar o botão”, disse Keith Richburg, ex-correspondente do Washington Post.

Alguns ativistas, no entanto, estão disposto a continuar a luta – mesmo após a promulgação da lei. “Temos de mostrar ao povo de Hong Kong que não podemos ter medo ou ser dissuadidos pela lei de segurança”, disse Avery Ng, líder da Liga dos Social-Democratas. “Estamos assumindo um certo risco, sendo que uma de nossas demandas é o fim da ditadura de partido único.” / NYT e WP 

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