REUTERS/Marco Bello
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Polícia reprime novo protesto contra Maduro e eleva tensão na Venezuela

Parlamentares da bancada opositora na Assembleia Nacional estavam entre os manifestantes e um deles ficou ferido no episódio

O Estado de S. Paulo

10 Junho 2016 | 05h00

CARACAS - Um grupo de deputados da oposição e alguns de seus partidários foram agredidos nesta quinta-feira (9) por supostos simpatizantes do governo venezuelano, nos arredores do edifício do Conselho Nacional Eleitoral (CNE) na capital, Caracas. Centenas de policiais com equipamentos antimotim utilizaram balas de borracha para dispersar as pessoas que estavam na área e o incidente acabou com pelo menos um congressista opositor ferido.

Cerca de 70 deputados da oposição foram à sede da entidade eleitoral exigir que as autoridades comecem a validar 1,8 milhão de assinaturas coletadas em favor do referendo revogatório do mandato do presidente Nicolás Maduro. O processo já demora mais de um mês.

Durante a manifestação, chegaram ao local vários partidários do governo que, em meio a gritos e golpes, enfrentaram os opositores. Um dos feridos foi o deputado Julio Borges, da oposição, que teve lesões no rosto. 

Com o rosto ensanguentado, Borges disse que os grupos favoráveis ao governo do presidente Nicolás Maduro atuaram “com total impunidade” e atacaram os rivais com “canos, pedras e bombas caseiras”, detonadas ao lado dos congressistas. “Maduro, o que queremos é votar, não se esconda atrás dos militares”, disse Borges.

A oposição já havia tentado na terça-feira marchar até a sede do CNE, mas centenas de policiais e soldados bloquearam o ato, sob o argumento de que eles não tinham a permissão da prefeitura governista de Caracas. A polícia e a Guarda Nacional Bolivariana têm impedido desde o mês passado o avanço da coalizão opositora até o conselho eleitoral.

Manifestantes antigoverno também enfrentaram policiais no câmpus da Universidade Central da Venezuela (UCV), em Caracas. O protesto estudantil foi igualmente reprimido com o uso de balas de borracha e bombas de gás lacrimogêneo. 

Os oposicionistas pressionam pela realização da votação popular ainda neste ano, enquanto algumas autoridades alegam que não há mais tempo para isso. Caso o referendo ocorra depois de 9 de janeiro de 2017 e Maduro perca, o vice-presidente, Aristóbulo Istúriz, assumiria o comando do país. Antes desse prazo, uma eleição presidencial seria convocada.

A tensão política tende a aumentar os casos de saques e protestos nas ruas em razão da inflação, da falta de alimentos, medicamentos e outros produtos básicos. 

Demora. Os líderes opositores esperavam que o CNE publicasse na quarta-feira o mapa do caminho do referendo, depois de o organismo ter o anunciado na véspera que considerava válido 1,3 milhão – a exigência legal era de 200 mil – das assinaturas que foram apresentadas para ativar a consulta popular. 

Mas o organismo eleitoral, frequentemente acusado de favorecer o chavismo, manteve silêncio sobre a continuidade do processo. “As senhoras (reitoras) do CNE estão desafiando todo um país que quer paz”, advertiu no Twitter o líder opositor Henrique Capriles, que lidera as marchas. 

Maduro alega que a oposição não se interessa pelo referendo, mas sim busca causar violência para provocar uma intervenção estrangeira no país. Segundo as pesquisas, 7 em cada 10 venezuelanos são favoráveis a uma mudança de governo. 

Para revogar o mandato de Maduro, a oposição precisa de mais de 7,5 milhões de votos, com os quais ele foi eleito em abril de 2013, após a morte de Hugo Chávez. 

“Esse é um país polarizado, não pode se dar o luxo de ter um árbitro que não termina de decidir as coisas, que não está sendo claro em suas sentenças, apesar do clima político. As pessoas não entendem a demora”, opinou Ignacio Avalos, diretor da ONG Observatório Eleitoral Venezuelano (OEV). / AFP


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