Polícia reprime protestos contra Putin e detém pelo menos 800 manifestantes

Um dia depois da vitória de Vladimir Putin nas eleições presidenciais, a polícia russa reprimiu protestos da oposição em Moscou e São Petersburgo. Pelo menos 500 manifestantes - incluindo proeminentes dirigentes opositores que denunciavam fraudes - foram presos na capital e outros 300 em São Petersburgo. Relatos de irregularidades repercutiram no exterior e houve cobrança por investigações mesmo nas felicitações a Putin.

TALITA EREDIA , ENVIADA ESPECIAL / MOSCOU, O Estado de S.Paulo

06 de março de 2012 | 03h04

Entre os detidos estão o blogueiro Alexei Navalni, o fundador do movimento opositor Solidariedade, Ilya Yashin, e outros ativistas que se recusavam a deixar a Praça Pushkin, na capital, onde planejavam erguer tendas e iniciar o movimento "Ocupe Moscou". Segundo os manifestantes informaram à agência Reuters, pelo menos 20 mil pessoas participaram do ato contra fraudes na eleição presidencial - de acordo com a polícia, 14 mil.

Líderes enviaram parabéns a Putin, sem deixar de se referir, direta ou indiretamente, às denúncias de irregularidades. A alemã Angela Merkel disse que a Rússia tem de continuar se modernizando e essa modernização precisa ser "política e social", além de econômica e tecnológica. A Chancelaria francesa levantou ressalvas à votação, mas disse que pretende continuar trabalhando com Putin. "A eleição não foi exemplar. É o mínimo que se pode dizer", disse o ministro do Exterior, Alain Juppé. "Mas Putin foi reeleito com folga e continuaremos nossa parceria."

Os EUA elogiaram "a conclusão da eleição" e foram diretos em sua mensagem. Pediram às autoridades russas a abertura de investigações sobre as denúncias. "Urgimos o governo russo a conduzir uma investigação independente e crível de todas as violações eleitorais reportadas", afirmou a porta-voz do Departamento de Estado, Victoria Nuland.

Em sua avaliação, observadores da Organização para a Segurança e Cooperação na Europa ressaltaram "a falta de uma disputa real e o abuso do uso da máquina estatal em favor do presidente eleito".

Confrontos. Entre os presos nos confrontos de ontem está também o escritor Eduard Limonov, detido por horas depois de um protesto não autorizado pela prefeitura na frente do prédio da Comissão Eleitoral.

Na praça Pushkin, a polícia chegou a impedir a entrada de manifestantes alegando excesso de participantes. Discursos de líderes políticos opositores e gritos por uma "Rússia sem Putin" marcaram os mais de 90 minutos do ato num palco simples.

A maioria dos ativistas era jovem, mas havia também um bom número de idosos que caminhava com dificuldade em meio à multidão. O protesto foi concluído com o anúncio de outra manifestação no sábado.

Mikhail Illarionovich, de 74 anos, estava acompanhado do filho e da neta. "É uma tristeza para mim ver que o país acabou se transformando numa grande mentira. E a KGB é a base dessa mentira. Putin? Quem é Putin? Um homem sem experiência política jamais deveria ter tido a chance de governar", disse Illarionovich ao Estado, exaltado, durante o protesto. "Estamos nas mãos da KGB até hoje."

Limonov e outras 50 pessoas foram agredidos e detidos numa manifestação na Praça Lubyanka. Além dos opositores, a polícia também deteve por algum tempo jornalistas que cobriam o ato. Eles foram libertados após apresentar credenciais. Em nota, o Comitê de Proteção aos Jornalistas mostrou preocupação com três repórteres e um blogueiro que permaneciam presos até o fim da noite de ontem. A poucas quadras dali, a juventude putiniana celebrava com música pop e holofotes diante do Kremlin.

Enquanto a Comissão Eleitoral confirmava a vitória de Putin com quase 64% dos votos, observadores independentes russos criticaram a votação. Viktor Vakhshtayn, pesquisador da Golos, principal ONG de monitoramento eleitoral russa, foi irônico ao concordar com as afirmações de Putin de que a eleição presidencial foi "a mais limpa da história da Rússia". "Se compararmos com as eleições anteriores, não temos dúvidas de que foi a eleição mais transparente que tivemos, apesar dos incontáveis casos de fraude. É impossível comparar as fraudes dessa votação com as de dezembro, por exemplo, ou com a eleição de 2008", afirmou ao Estado. Segundo Vakhshtayn, foi uma eleição para ser apresentada para a imprensa. "Agora eles buscarão novos mecanismos para fraudar futuras votações."

"Nós nos superestimamos. Pensamos que o resto do país sabia o que nós sabemos", resumiu o blogueiro Alexei Navalni. / COLABOROU DENISE CHRISPIM MARIN

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