Polícia retém Mario Vargas Llosa no aeroporto de Caracas

Escritor é advertido que ''como estrangeiro, não tem direito de fazer declarações políticas na Venezuela''

AFP, O Estadao de S.Paulo

28 de maio de 2009 | 00h00

O escritor peruano Mario Vargas Llosa foi retido ontem durante uma hora e meia no aeroporto de Caracas e advertido por um funcionário da alfândega de que "como estrangeiro, não tinha direito de fazer declarações políticas na Venezuela". Vargas Llosa tem criticado o presidente venezuelano, Hugo Chávez, em artigos escritos para o jornal italiano La Stampa e reproduzidos pelo Estado. Na segunda-feira, seu filho, o jornalista Álvaro Vargas Llosa, também crítico de Chávez, ficou retido por três horas enquanto seus documentos eram checados. "Eles revistaram minha bagagem e comprovaram que não trago nada de contrabando, nenhum material explosivo, nem subversivo, salvo alguns livros de poesias", disse o escritor, que viajou para a Venezuela para participar de uma conferência sobre liberdade e democracia. "Não vim insultar Chávez, mas expor minhas ideias." O episódio ocorre em um momento em que o debate sobre a liberdade de expressão está tomando fôlego na Venezuela. Ontem, completaram-se dois anos que a emissora opositora RCTV saiu do ar porque Chávez rejeitou renovar sua licença.Funcionários do setor de comunicações, atores e grupos opositores realizaram no fim da tarde de ontem uma manifestação em Caracas em apoio à RCTV, que agora transmite via cabo de Miami. Em debates, entrevistas e discursos, diversos venezuelanos também demonstraram seu repúdio às ameaças recentes de Chávez contra outra TV opositora - a Globovisión. À tarde, o ministro de Comércio da Venezuela, Eduardo Samán, apresentou à promotoria provas de supostas irregularidades na compra de 24 veículos confiscados na sexta-feira numa das casas de Guillermo Zuloaga, dono da Globovisión. Zuloaga, que tem uma concessionária Toyota, diz que os carros foram adquiridos de forma regular e denuncia perseguição política. "O tema da liberdade de expressão está hoje mais vivo do que nunca. O governo quer regular todas as formas de pensamento e ameaça a Globovisión para impedir críticas", disse o diretor da RCTV, Marcel Granier. Em maio de 2007, o governo venezuelano recusou-se a renovar a licença da RCTV, que estava havia 53 anos no ar e era campeã de audiência. A justificativa foi a de que Granier teria participado do fracassado golpe contra Chávez em 2002. Na época, foram realizados protestos em toda a Venezuela em apoio à emissora. Desde então, a Globovisión tem sido a única emissora opositora que ainda transmite na rede aberta - embora apenas para as três principais cidades do país. Mas, há três semanas, o chanceler Nicolás Maduro acusou a emissora de fazer "terrorismo midiático" ao noticiar o terremoto que abalou Caracas no dia 4 sem consultar as autoridades venezuelanas.Após o tremor, a Globovisión disse que sua intensidade foi de 5,4 graus, citando o Serviço Geológico dos EUA. Além disso, o diretor da TV, Alberto Ravell criticou a "reação lenta" do governo. Segundo autoridades, por tais faltas a Globovisión pode ser multada ou obrigada interromper suas transmissões temporariamente. Na sexta-feira, a Organização dos Estados Americanos e o relator da ONU para a Liberdade de Opinião e Expressão, Frank La Rue, manifestaram preocupação pelas ameaças de Caracas aos meios de comunicação.MORDAÇA27 de maio de 2007 - Chávez se recusa a renovar a licença da TV opositora RCTV11 de abril de 2009 - Globovisión é acusada de fazer "terrorismo midiático"18 de abril de 2009 - Promotora sugere caçar licença de emissoras que "prejudiquem o Estado ou causem confusão"22 de abril de 2009 - Polícia faz busca na casa do dono da Globovisión, Guillermo Zuloaga

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