Rachel Wong / Hong Kong Free Press / HKFP
Rachel Wong / Hong Kong Free Press / HKFP

Serviço secreto da China transforma hotel de luxo em Hong Kong em QG de espiões

Foi a primeira vez que o aparato de segurança do governo chinês tem permissão para operar em Hong Kong

David Crawshaw / The Washington Post, O Estado de S.Paulo

08 de julho de 2020 | 13h16

HONG KONG - Quando os responsáveis pelo serviço secreto da China chegaram a Hong Kong, no mês passado, eles precisavam de um lar - e o quanto antes. Então, fizeram o que qualquer recém-chegado faria: confiscaram um hotel de 33 andares com uma piscina na cobertura e vistas panorâmicas do porto, depois ergueram barreiras de três metros de altura para limitar o acesso do público às instalações.

Na quarta, sob forte presença policial e antes de qualquer anúncio público sobre o assunto, as autoridades inauguraram o Escritório de Salvaguarda da Segurança Nacional do Governo Popular Central na Região Administrativa Especial de Hong Kong, em uma cerimônia realizada atrás de barricadas. Tocaram o hino nacional chinês e levantaram a bandeira chinesa, embora a mídia local não tenha sido convidada. Quando a cerimônia terminou, os repórteres finalmente conseguiram fotografar a porta da frente do edifício.

O Metropark Hotel, nos arredores do distrito de Causeway Bay, será a base inicial da nova agência, encarregada de coletar informações e implementar uma nova lei que reduz drasticamente as liberdades políticas em Hong Kong, já que Pequim assume o controle total do território após os protestos antigovernamentais.

É a primeira vez que o aparato de segurança estatal do governo chinês tem permissão para operar em Hong Kong, o que significa um marco nos esforços das autoridades para desmontar a barreira que separava a cidade do país autoritário.

A lei de segurança, que entrou em vigor em 1º de julho, especifica quatro crimes amplamente definidos contra a segurança nacional que podem ser punidos com prisão perpétua: subversão, secessão, terrorismo e conluio com forças estrangeiras. Na prática, dizem advogados e outros especialistas, estende efetivamente as disposições legais do continente a Hong Kong, encerrando a autonomia que a China prometeu que o centro financeiro teria até 2047 após a devolução do território pelo Reino Unido.

O novo escritório é liderado por Zheng Yanxiong, um alto funcionário do Partido Comunista conhecido por anular protestos populares no território continental da China. Luo Huining, principal autoridade de Pequim em Hong Kong, foi nomeado consultor da agência.

Dirigindo-se aos delegados na cerimônia de abertura quarta-feira, Luo rejeitou as críticas a Pequim. Os Estados Unidos e seus aliados condenaram a repressão como uma violação do acordo de transferência sino-britânica e um sério golpe à autonomia e aos direitos políticos de Hong Kong.

“Enquanto as pessoas que amam a China e (Hong Kong) estão dando boas-vindas ao estabelecimento do escritório, aqueles com segundas intenções e que são anti-China e procuram desestabilizar Hong Kong não apenas estigmatizam o escritório, mas também tentam manchar o sistema legal e as regras do continente chinês na tentativa de despertar preocupações e medos desnecessários”, disse Luo. "O continente chinês tem um sistema legal saudável e um ambiente sólido para o Estado de Direito."

Zheng disse às poucas dezenas de participantes que seus agentes cumpririam a lei e não infringiriam "os legítimos direitos e interesses de qualquer indivíduo ou organização". Trabalhadores instalaram da noite para o dia o emblema nacional da China no hotel, uma marca de quatro estrelas da HK CTS Hotels, uma subsidiária do China National Travel Service Group.

"Independentemente de você estar aqui a negócios ou a lazer, ofereceremos uma ajuda para tornar sua estadia memorável", diz o site da empresa sobre o Metropark, que possui 266 quartos. O hotel tem vista para o Victoria Park, uma importante zona de protesto e o ponto de partida para muitos dos grandes comícios do ano passado que pedem maiores liberdades políticas e responsabilidade policial, entre outras demandas.

Por décadas, dezenas de milhares de cidadãos de Hong Kong se reúnem no parque todo dia 4 de junho para homenagear o aniversário da repressão de Pequim em 1989 contra ativistas da democracia na Praça Tiananmen. Autoridades tentaram proibir a vigília este ano, citando medidas de distanciamento social, mas ativistas os desafiaram.

“Era um bairro tranquilo com muitas pequenas empresas. Seria difícil imaginar o que será depois de hoje”, tuitou Rachel Wong, pesquisadora acadêmica e repórter de notícias local, quando o cordão de segurança subiu pela nova sede da agência de segurança. Os sites de reservas de hotéis mostraram que o Metropark não tinha mais disponibilidade até o final do ano.

O hotel teve classificações positivas on-line, com revisores elogiando sua localização e vistas espetaculares de Hong Kong. Alguns revisores observaram, no entanto, que parecia haver um problema com a umidade. "O serviço foi excelente, mas o quarto do hotel tinha um cheiro desagradável", observou um revisor.

 

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