Polícia tenta impedir mutilação genital em Londres

Prática é comum entre imigrantes africanos para manter meninas `puras´ e recompensa para quem levar à prisão aos envolvidos é de cerca de R$ 80 mil

BBC

11 Julho 2007 | 09h37

A polícia de Londres está fazendo uma campanha para combater a prática da mutilação genital feminina em comunidades de imigrantes na capital britânica. Uma recompensa de £ 20 mil, o equivalente a cerca de R$ 80 mil, está sendo oferecida a quem tiver informações que possam levar à prisão dos envolvidos.A campanha começa no período de férias escolares de verão, quando aumenta o risco de mutilação para as meninas, principalmente de origem africana. Os meses de férias são vistos como a melhor época para se realizar o procedimento, já que o tempo longe das salas de aula é geralmente suficiente para que as meninas se recuperem.A mutilação genital consiste na retirada total ou parcial da genitália externa feminina por razões culturais. Pureza A prática é muito comum em diversas comunidades africanas, principalmente muçulmanas, e é vista como uma iniciação à vida adulta e uma maneira de manter as meninas "puras", garantindo que elas consigam casar.No Reino Unido, cerca de 7 mil meninas correm risco de serem circuncidadas, apesar de uma nova lei de 2003, que além de reafirmar a proibição da prática no país, também torna crime levar crianças para o exterior para realizar a mutilação.Uma assistente social que trabalha com jovens de comunidades africanas em Londres diz que o costume é tão tradicional que ela já encontrou meninas que queriam ser circuncidadas. "Você quer ser parte da comunidade. Quer se casar e não quer ser considerada suja", diz Leyla Hussein. Favor A modelo Waris Dirie, nascida na Somália, passou pela experiência da mutilação quando tinha apenas cinco anos. Sua mãe a segurou sobre uma pedra, enquanto outra mulher cortou partes de sua genitália com uma lâmina de barbear, sem usar nenhum anestésico.O que sobrou foi então costurado com uma linha grossa, deixando apenas um pequeno buraco para que ela pudesse urinar. A agonia da mutilação foi, em parte, responsável pela decisão de Waris de deixar a comunidade em que nasceu, no deserto da Somália, e fugir para Londres.Mas mesmo depois de uma bem-sucedida carreira como modelo e diversas cirurgias plásticas, ela diz que nunca vai esquecer o que passou. "Todo dia eu luto para entender por que isso aconteceu comigo", diz ela. "Tenho certeza de que minha mãe achava que estava me fazendo um favor. De qualquer jeito, não acho que ela tivesse escolha. Aquela era uma sociedade em que os homens mandavam. Minha mãe estava apenas obedecendo. Essa era a regra."Waris Dirie se tornou uma das maiores ativistas contra a mutilação genital feminina no mundo. Há onze anos ela lidera campanhas tentando conscientizar as pessoas sobre a existência da prática, que ainda atinge cerca de 3 milhões de meninas todos os anos.A mutilação pode ter efeitos como infecção, incontinência, infertilidade e perda do prazer sexual, além de problemas psicológicos significativos. Diversos países baniram o costume recentemente. O Egito, onde quase 90% das mulheres são circuncidadas, proibiu a prática há poucas semanas, depois que uma menina de 12 anos morreu em conseqüência da mutilação.

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