Polícia trata morte de Berezovski como 'inexplicável'

Magnata russo e rival do presidente Vladimir Putin foi encontrado morto na residência em que morava no autoexílio na Grã-Bretanha

JAMIL CHADE, CORRESPONDENTE / GENEBRA, O Estado de S.Paulo

25 de março de 2013 | 02h10

Nenhuma prova do uso de químicos, de envenenamento ou da presença de terceiros foi encontrada, mas a polícia britânica admite que ainda é um mistério o motivo da morte do magnata Boris Berezovski e não descarta nenhuma hipótese. "As causas são inexplicáveis", admite a Scotland Yard em comunicado. O russo foi encontrado morto no sábado em sua casa na Grã-Bretanha.

Ontem, trocas de acusações e denúncias proliferaram, enquanto o governo de Vladimir Putin insistia que o magnata estaria quebrado. O Estado apurou que o russo chegou a se aproximar do governo brasileiro para negociar um eventual asilo no País em 2007, em troca de massivos investimentos.

Segundo a polícia, Berezovski foi encontrado por um funcionário de sua mansão na vila de Ascot, no Condado de Berkshire, dentro de um banheiro que teria sido trancado por dentro.

Um grupo de especialistas foi enviado ao local para saber se a casa tinha algum sinal de resíduos químicos, biológicos ou de radiação. Nada foi achado. "Não temos nenhuma prova nesse momento que possa sugerir o envolvimento de terceiros", afirmou o detetive Kevin Brown. Mas as incertezas ainda predominam e nada está descartado.

Em uma entrevista concedida à revista Forbes Russia um dia antes de sua morte, o russo confessou que a impossibilidade de retornar a Moscou - pelas condenações existentes contra ele - tinha "tirado o sentido" de sua vida. Há 13 anos, ele vivia como exilado em Londres, acusado em Moscou de crimes financeiros e desvios de US$ 2 bilhões.

Pessoas que conheciam o russo indicaram que, nos últimos meses, ele teria entrado em depressão, depois de perder milhões de euros em casos judiciais. Mas outros de seus aliados negam que a entrevista tenha ocorrido e que ela poderia ter sido forjada. O jornalista confessou que a conversa ocorreu "em off", mas que ele decidiu publicar depois da morte do magnata.

Políticos e aliados de Berezovski defendem teses de assassinato ou morte natural. O ativista de oposição Sergei Parkhomenko duvida que Berezovski tenha cometido suicídio. "Ele uma vez me disse: 'A saúde é mais uma arma. Quem morrer primeiro perde e eu nunca perco'".

Outro ponto que chama a atenção é o fato de o magnata estar se preparando para depor como testemunha no caso da morte por envenenamento do ex-agente russo Alexander Litvinenko. Os dois faziam parte de um mesmo grupo anti-Putin em Londres. Grupos de oposição ao Kremlin acusam o presidente de ter ordenado a morte do ex-espião.

Volta. O Kremlin ainda revelou ontem que Berezovski teria escrito uma carta a seu maior inimigo, o presidente Putin, pedindo que aceitasse seu retorno. Sua promessa era de não se envolver em política e se dedicar à ciência.

Aliados questionam a veracidade da carta. "É verdade que ele queria voltar, mas não acredito que teria escrito uma carta", disse. Evgeni Chichvarkin, outro magnata que também deixou Moscou para fugir de processos.

Já o historiador Yuri Felshtinski insiste que a tese de um suicídio é questionável. "Não temos fatos. Mas a realidade é que tivemos uma série de mortes questionáveis de exilados russos", disse. Ele citou o caso de Badri Patarkatsishvili, parceiro comercial de Berezovski, que em 2008 foi encontrado morto.

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