Lam Yik Fei/NYT
Lam Yik Fei/NYT

Polícia usa gás lacrimogêneo e spray de pimenta para dispersar manifestantes em Hong Kong

Milhares foram às ruas protestar contra mudanças na lei de segurança nacional proposta pelo governo chinês

Redação, O Estado de S. Paulo

24 de maio de 2020 | 05h26
Atualizado 24 de maio de 2020 | 21h34

HONG KONG -  Após meses de uma trégua forçada pela covid-19, a polícia de Hong Kong disparou neste domingo, 24, gás lacrimogêneo e usou um canhão de água para dispersar a multidão que protestava contra a implementação, por parte de Pequim, de uma lei de segurança nacional sobre o território. Mais de cem pessoas foram presas no ato que marcou um retorno às manifestações que tomaram a cidade no ano passado.

Apesar das medidas de distanciamento social ainda em vigor por causa do surto do coronavírus, que proíbem reuniões de mais de oito pessoas, e de leis que cercam assembleias ilegais, dezenas de milhares de pessoas se aglomeraram no distrito comercial de Hong Kong, Causeway Bay. As convocações para a assembleia foram feitas online, sem um organizador formal ou permissão.

Gritos de guerra do ano passado, como “lute pela liberdade” e “de pé com Hong Kong” ecoaram entre manifestantes de várias idades. E apareceram slogans novos, como “Independência de Hong Kong, a única saída”. “Se não sairmos hoje para revidar, esta pode ser a última vez”, disse Chris, um manifestante de 19 anos que deu apenas seu primeiro nome por já ter sido preso ao participar de um protesto ilegal. “Talvez amanhã Hong Kong faça parte da China e não poderemos sequer fazer uma única crítica na internet sem sermos presos”.

Alguns ativistas se reuniram perto do ponto de partida de uma marcha apresentada como uma “conversa sobre saúde”, alegando que estavam isentos de restrições à reunião pública. Foram presos mesmo assim por participação em assembleia não autorizada.

Logo o protesto ganhou tons familiares: garrafas atiradas contra a polícia, tiros de gás lacrimogêneo em resposta, jogos de gato e rato entre manifestantes e policiais e prisões. À noite, a polícia disse ter detido pelo menos 180 pessoas, a maioria acusada de participar de assembleia ilegal.

A nova lei de segurança nacional pretende criminalizar “interferência estrangeira”, atividades secessionistas e de subversão do poder do Estado. Pequim planeja impô-la por decreto, ignorando os processos legislativos estabelecidos em Hong Kong em 1997. A medida mina a Constituição de Hong Kong e essencialmente descarta a abordagem “um país, dois sistemas”, que deveria preservar a autonomia do antigo território britânico até pelo menos 2047.

O secretário de Estado dos Estados Unidos, Mike Pompeo, chamou a lei de “sentença de morte” para a autonomia de Hong Kong. O conselheiro de segurança nacional Robert O’Brien disse que um esforço chinês para afirmar o domínio sobre Hong Kong implicaria em sanções financeiras dos EUA contra ambos. Em entrevista ao programa Meet the Press da NBC, O’Brien previu que empresas financeiras globais e residentes com boa escolaridade fugiriam de Hong Kong. “É difícil ver como Hong Kong poderia se manter como o centro financeiro asiático que se tornou se a China assumisse o controle”, disse.

O ministro das Relações Exteriores da China, Wang Yi, disse que a legislação de segurança nacional é urgente por causa dos protestos e tem caráter estrito. “Isso não tem impacto sobre o alto grau de autonomia de Hong Kong, os direitos e liberdades dos residentes de Hong Kong ou os direitos e interesses legítimos dos investidores estrangeiros em Hong Kong”, disse. /WP

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