'Polícia venezuelana é conivente com criminosos'

Líder de programa para que busca tirar jovens da criminalidade diz que na periferia confunde-se a polícia com os bandidos

Entrevista com

LUIZ RAATZ , ENVIADO ESPECIAL / CARACAS, O Estado de S.Paulo

27 Maio 2012 | 03h08

O padre Alejandro Moreno trabalha há 32 anos com a comunidade carente de Petare, a maior favela da Venezuela e uma das mais populosas da América Latina. Sua função consiste em promover atividades esportivas e culturais que afastem crianças e adolescentes da criminalidade cada vez mais crescente nos distritos mais pobres da Grande Caracas.

Testemunha diária de como a violência urbana se tornou um dos principais problemas do cotidiano venezuelano, Moreno narrou ao Estado como a presença do aparato estatal bolivariano é falha em Petare e como, muitas vezes, a polícia e os criminosos invertem seus papéis. "A polícia extorque dinheiro e mata inocentes", diz. "Os criminosos, protegem a população." Ainda de acordo com o religioso, a polícia é conivente com a ação de grupos criminosos na periferia. "Eles oprimem a comunidade. Apesar disso, a população tem a esperança de que será protegida", diz. A seguir, trechos da entrevista:

Como é seu dia a dia em Petare?

Me dedico especialmente à prevenção da criminalidade entre crianças e adolescentes. Minha função é ocupá-los com atividades esportivas e culturais quando não estão em casa ou na escola. Aqui nos centro juvenil tentamos ensinar valores e a importância da convivência em comunidade para que se distanciem dos grupos criminosos que atuam aqui na favela que têm um poder de sedução material sobre esses jovens.

E nesse trabalho diário, quais são as principais reclamações dos moradores de Petare no que diz respeito à violência urbana?

A principal é que a polícia não os atende e quando chegam para atender uma ocorrência já se passou horas do crime. Que prende mais inocentes do que culpados e é mais nociva do que os criminosos. Há uma sensação de impunidade e de que o Estado não está presente no sentido de proteger o cidadão. E isso acontece em todo o país. Cerca de 90% dos crimes não são investigados. Os policiais são delinquentes que usam o uniforme para cometer crimes.

Quais os casos de violência mais comuns?

Na favela, há muitos confrontos entre facções criminosas, principalmente por controle do tráfico de drogas. Geralmente as pessoas que não estão envolvidas com esses grupos não são vítimas de execuções, exceto quando são vítimas de bala perdida ou algo do gênero. O delinquente não se mete com a comunidade, e em certa medida a protege.

Quais as origens da criminalidade? Há ação de grupos colombianos?

A origem do aumento da criminalidade, em boa parte, pode sim ser atribuída a esse fenômeno. A quantidade de delinquentes colombianos que escaparam do país para a Venezuela aumentou muito. A fronteira é muito insegura e eles vieram para cá. Além disso, o tráfico de drogas está crescendo na Venezuela em razão da leniência de governo. Hoje, a Venezuela é um país usado como rota e produção de drogas.

Houve medidas tomadas pelo Estado, e em quais níveis de governo, para amenizar o problema da violência?

Não. A polícia municipal chegou a funcionar por algum tempo - dois ou três anos -, mas depois não. A polícia hoje é conivente com o crime organizado. Oprimem e extorquem a comunidade. Apesar disso, a população ainda tem a esperança de que a polícia fará algo para protegê-la.

E o que mudou na questão da segurança pública em Petare desde 1999, quando o presidente Chávez chegou ao poder, até hoje?

A violência em Petare, assim como no país todo, aumentou muito. Há novas formas de ações criminosas, como o sequestro relâmpago, a ação de matadores de aluguel, que é bastante difundida aqui. Isso surgiu nos últimos anos.

Na sua opinião, o problema da violência pode ter um papel importante nas eleições de 2012? Há um setor da população sim, mas há outra porcentagem dos venezuelanos que vê o problema como normal. Esse setor não culpa o Estado pela questão da violência. Eles responsabilizam a polícia, que é um agente do Estado com o qual lidam diariamente, e isentam de culpa o presidente e o governo central.

O governo e oposição têm posições distintas sobre a questão da violência urbana?

Na verdade, eles têm posições similares. Os dois têm um discurso contrário à violência. Apesar disso, o governo tem repetido as mesmas promessas de anos atrás. A oposição tem um discurso e promessas que parecem mais eficazes, mas não se sabe se vai funcionar. Quando eles governaram essa região, (o município de Sucre, ao qual Petare pertence), melhoraram a polícia, mas o governo tirou suas atribuições, seus recursos e a oposição não conseguiu fazer muitas coisas. Mas pelo menos a oposição está demonstrando boa vontade para tratar da questão da violência urbana.

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