Polícia volta a enfrentar manifestantes no Quênia

Violência se espalha e número de mortos chega a 800; confronto aumenta entre grupos no final de semana

Agências internacionais,

28 de janeiro de 2008 | 08h44

Centenas de pessoas de tribos rivais armadas com machados, cassetetes e pedras confrontaram-se nesta segunda-feira, 28, em uma das principais avenidas da capital do Quênia, e só se dispersaram depois que policiais fizeram disparos de advertência.   Veja também: Entenda a crise pós-eleitoral do Quênia    Também ocorreram distúrbios na cidade de Kisumu, no oeste do país, onde bandos armados atearam fogo em casas e ônibus da estação central. Um motorista foi queimado vivo em seu miniônibus, segundo a testemunha Lillian Ocho.   O número de mortos durante um mês de confrontos étnicos no país já chega a 800. A violência começou com a reeleição do presidente Mwai Kibaki nas eleições de 27 de dezembro, denunciadas como fraudulentas pelo candidato derrotado, Raila Odinga. Grande parte da violência opôs grupos étnicos contra os kikuyu, tribo de Kibaki, que domina a economia e a política do país. Cerca de 255 mil pessoas foram forçadas a abandonar suas casas.   A matança transformou o antes estável país africano e suas zonas turísticas em locais proibidos. Em Kisumu, grupos de jovens bloquearam com pneus em chamas as estradas que dão acesso à cidade e apedrejavam quem tentasse passar. "Kikuyus devem partir! Não há paz sem Raila!", eles gritavam. Alguns membros da tribo de Odinga, os luo, perseguiram os kikuyus, incluindo o motorista queimado vivo.   "A estrada está coberta de sangue. É o caos. Os luos estão caçando os kikuyus por vingança", disse Baraka Karama, uma jornalista da estatal Kenya Television.   Um funcionário do necrotério disse que recebeu o corpo de um homem baleado na nuca. Uma funcionária da limpeza de uma escola também foi atingida por uma bala disparada por um policial, disse Charles Odhiambo, professor na Lion High School.   A violência se espalhou durante o final de semana atingindo Naivasha, 90 km a noroeste de Nairóbi, antes uma calma cidade turística exportadora de flores. "Nós vamos vingar as mortes de nossos irmãos e irmãs e nada vai nos deter", disse Anthony Mwangi, segurando uma pedra, em Naivasha no domingo. "Para cada kikuyu morto, devemos vingar matando três", acrescentou.   Ao menos 22 pessoas foram mortas na cidade durante o final de semana, disse o delegado Katee Mwanza, quando os kikuyus incendiaram casas dos rivais luo. Entre os mortos, 19 eram luos que uma gangue de kikuyus caçou em uma favela e queimou em um barraco, disse o capitão Grace Kakai. Os outros foram mortos a machadadas, segundo um repórter local. A polícia não interveio.   Na segunda-feira de manhã os dois lados, cerca de mil pessoas no total, encontraram-se em frente ao clube Lake Naivasha. Ao avançarem, a polícia interveio fazendo disparos para o ar, dispersando-os momentaneamente.   Em Nakuru, capital do Rift Valley, onde a explosão de violência começou na quinta-feira, 55 corpos chegaram ao necrotério até domingo, segundo um funcionário que pediu anonimato. Um repórter local relata ter visto cinco corpos em duas favelas nos subúrbios de Nakuru.   O comissário da polícia nacional, Hussein Ali, disse aos jornalistas em Nairóbi que a polícia prendeu 159 pessoas em Nakuru e Naivasha "por porte de armas e suspeita de envolvimento nas mortes". Ali disse também que 95 pessoas foram detidas em Nairóbi, mas não deu detalhes. Segundo ele, o número de mortos será divulgado mais tarde nesta segunda-feira.     Solução política     Enquanto isso, Kibaki e Odinga estão longe de resolver a crise, a pior do país desde a independência do Reino Unido, em 1963. Kibaki disse que está aberto para conversar diretamente com Odinga, mas que sua posição de presidente é inegociável. Odinga disse que Kibaki deve deixar o cargo e que apenas novas eleições podem trazer paz ao país.   Odinga se encontrou com o ex-secretário-geral das Organizações das Nações Unidas (ONU), Kofi Annan, no domingo. O porta-voz do partido de Odinga, Salim Leone, disse que Annan pediu que ele nomeasse três negociadores para as conversas e que estas começariam "em uma semana".

Tudo o que sabemos sobre:
Quênia

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.