Policiais argentinos invadem sede de TV a cabo controlada por Grupo Clarín

A polícia militar argentina ocupou ontem por três horas a sede da operadora de TV a cabo e internet Cablevisión, em Buenos Aires. A intervenção na subsidiária do Grupo Clarín, crítico à presidente Cristina Kirchner, foi autorizada pela Justiça após uma denúncia de concorrência desleal apresentada pelo Grupo Uno/Vila-Manzano, dos empresários Daniel Vila e José Luís Manzano, aliados do governo.

LUIZ RAATZ, O Estado de S.Paulo

21 de dezembro de 2011 | 03h05

Na sentença em que autorizou a operação, o juiz Walter Bento, da 2.ª Vara da Justiça Federal de Mendoza, ordenou a intervenção na empresa e designou um auditor para analisar as contas da companhia nos próximos 60 dias.

O Ministério de Segurança argentino informou, em comunicado à imprensa, que 20 agentes participaram da operação, número contestado por testemunhas. De acordo com o órgão, a polícia militar agiu estritamente no âmbito de suas atribuições, que incluem, além da manutenção da ordem, o auxílio à Justiça Federal.

Segundo funcionários, a invasão do prédio da empresa no bairro portenho de Barracas começou por volta das 10 horas (11 horas de Brasília). Os agentes policiais subiram até o nono andar e cobraram documentos e planilhas financeiras dos executivos do grupo.

A operação foi registrada por uma equipe da TV estatal e Enrique Anzoise, o interventor designado pela Justiça, sofreu tentativa de agressão dos empregados, que foram contidos pela polícia.

"Cerca de 50 policiais intimidaram os funcionários e revistaram seus pertences", relatou ao Estado por telefone o gerente de Comunicação do Grupo Clarín, Martín Etchevers. "Esse abuso configura uma intimidação e uma tentativa do governo de tomar o controle da Cablevisión."

Para o editor-chefe do portal Clarín.com, Sergio Danishewsky, há uma afinidade de interesses entre o governo e o Grupo Uno. "Está claro que a Cablevisión era um alvo do governo. Outro grupo que tome alguma ação contra a empresa receberá apoio", afirmou.

O advogado de Anzoise, Ricardo Mastronardi, disse em entrevista coletiva que seu cliente tem 60 dias para analisar a documentação da empresa e preparar um relatório ao juiz que cuida do caso.

Favorecimento. Além do operadora de TV a cabo Supercanal, o Grupo Uno edita também uma rede de jornais no interior da Argentina. Neste ano, a companhia viu sua receita com publicidade oficial crescer quase nove vezes: de US$ 440 mil para US$ 3,7 milhões. O grupo Clarín, que publica o diário de maior circulação da Argentina, sofreu uma queda de 63% em seus ganhos com anúncios do governo no mesmo período.

Vila e Manzano também apoiam o projeto do governo argentino de nacionalizar a empresa que produz e distribui papel-jornal no país, a Papel Prensa, que deve ser votada no Senado até quinta-feira (mais informações nesta página). Para o executivo do Grupo Clarín, há uma relação entre os dois episódios. "Houve uma coordenação para que tudo ocorresse nesta semana", disse Etchevers. "Não havia urgência para que a operação fosse executada hoje.

Em reação à intervenção policial na sede do grupo, as ações do Grupo Clarín caíram 10% na Bolsa de Buenos Aires, o menor valor em dois anos. A maior parte da receita do conglomerado multimídia vem da Cablevisión. / COM CRISTINA QUEIROZ, AFP e REUTERS

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