John Minchillo/AP
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Policial se livra de acusação de homicídio no caso Breonna Taylor e novos protestos começam

Decisão enfureceu multidão de manifestantes que acompanhava tudo ao vivo, do lado de fora do tribunal e desencadeou protestos em várias cidades

Redação, O Estado de S.Paulo

23 de setembro de 2020 | 20h58

LOUISVILLE - Uma juíza da cidade americana de Louisville (Kentucky) indiciou nesta quarta-feira, 23, um ex-detetive da polícia local por colocar em perigo os vizinhos de Breonna Taylor ao disparar imprudentemente durante uma batida em seu apartamento em março. Mas nenhum oficial foi indiciado por matar Taylor, o que enfureceu uma multidão de manifestantes que acompanhou a decisão ao vivo, do lado de fora do tribunal.

A juíza Annie O'Connell indiciou Brett Hankison por três acusações de "conduta perigosa", dizendo que ele ameaçou a vida de três pessoas disparando balas que atravessaram o apartamento de Taylor e entraram no deles. Uma mulher grávida, seu marido e seu filho de 5 anos estavam dormindo no apartamento vizinho, e as balas estilhaçaram uma porta de vidro, mas não feriram a família.

O caso de Taylor foi especialmente lembrado durante a onda de protestos contra a violência policial e o racismo que abalou os Estados Unidos depois da morte de George Floyd em 25 de maio - um americano negro que morreu asfixiado por um policial branco em Minneapolis.

A juíza determinou a prisão do policial Hankison e estabeleceu uma fiança de US$ 15 mil. O policial foi demitido em junho. Ele foi o único dos três oficiais demitido após o caso. 

Em uma entrevista coletiva após o anúncio da decisão do grande júri, o procurador-geral de Kentucky, Daniel Cameron, disse que sabia que algumas pessoas não ficariam satisfeitas com o resultado.

A cidade de 600 mil habitantes está sob estado de emergência e a maior parte do centro está restrita ao tráfego pelo receio de protestos por conta da decisão judicial. "Sei que as acusações anunciadas hoje não irão satisfazer a todos", admitiu o promotor Cameron, que confessou ter tido "uma conversa difícil" com a família de Taylor.

Cameron pediu àqueles que foram às ruas para "lembrarem que marchas pacíficas" são seu "direito como cidadãos americanos", mas que "violência e destruição" não são. "Buscar justiça com violência não rende justiça, e sim vingança", disse ele.

Mas a declaração não foi suficiente para conter os protestos em Louisville, onde dois policiais foram feridos a bala e um suspeito foi detido, e em outras cidades.  

O chefe interino da polícia de Louisville, Robert Schroeder, disse que os policiais "não correm risco de vida".

À medida que a tarde avançava, a polícia com equipamentos de proteção entrou em conflito com um número crescente de manifestantes em algumas áreas e usou cassetetes para tentar conter alguns deles. Os policiais detiveram pelo menos quatro pessoas, que estavam sentadas no chão com os pulsos amarrados atrás de si.

A decisão teve repercussão imediata na campanha eleitoral. O candidato democrata, Joe Biden, fez um apelo para que as manifestações fosse pacíficas. Ele afirmou a jornalistas que o acompanhavam em um evento em Charlotte, na Carolina do Norte, que ele iria avaliar a decisão antes de fazer mais comentários. O presidente republicano, Donald Trump, que busca a reeleição, elogiou a forma como Cameron conduziu o caso e disse que seu trabalho foi "brilhante".  

Baleada cinco vezes dentro de casa

A decisão foi tomada depois de mais de 100 dias de protestos e uma investigação de um mês sobre a morte de Taylor, uma técnica de enfermagem dos serviços de emergência de 26 anos que foi baleada pelo menos cinco vezes no corredor de seu apartamento por policiais que executavam um mandado de busca.

Porque os policiais não atiraram primeiro - foi o namorado da jovem que abriu fogo, atingindo um oficial na perna, que ele disse ter confundido com um intruso - muitos especialistas legais acharam improvável que os policiais fossem indiciados pela morte.

Três policiais dispararam um total de 32 tiros, disse Cameron. Os disparos do sargento Jonathan Mattingly e do detetive Myles Cosgrove atingiram Taylor, enquanto o detetive Hankinson, o único policial acusado, deu dez tiros, nenhum dos quais atingiu a jovem.

O nome e a imagem de Breonna Taylor se tornaram parte do movimento nacional por justiça racial. Personalidades escreveram cartas abertas e ergueram outdoors exigindo que os policiais brancos fossem acusados criminalmente pela morte de uma jovem negra.

Autoridades municipais e estaduais temiam que uma decisão de não processar os policiais pudesse inflamar uma cidade já agitada por manifestações que às vezes se tornam violentas.

A mãe de Taylor processou a cidade de Louisville por homicídio culposo e recebeu um acordo de US$ 12 milhões na semana passada. Mas ela e seus advogados insistiram que nada menos do que acusações de homicídio para os três policiais seria suficiente, uma demanda aceita por milhares de manifestantes em Kentucky e em todo o país.

Ben Crump, advogado da família, escreveu no Twitter que deixar de acusar qualquer policial pela morte de Taylor foi “ultrajante e ofensivo”. O governador de Kentucky, Andy Beshear, e o prefeito de Louisville, Greg Fischer, ambos democratas, pediram ao procurador-geral que publicasse o máximo possível das evidências online para que o público pudesse analisá-las.

Para Entender

O caso George Floyd

Homem negro de 46 anos foi morto por policial branco durante abordagem; desencadeados pelo assassinato, protestos contra o racismo e a violência policial eclodiram nos EUA e no mundo

Muitos especialistas jurídicos disseram antes da decisão que as acusações pela morte de Taylor seriam improváveis, dado o estatuto do Estado que permite aos cidadãos usar força letal em legítima defesa. John W. Stewart, ex-procurador-geral assistente em Kentucky, disse acreditar que pelo menos dois dos policiais que abriram fogo eram protegidos por essa lei.

“Como um afro-americano, como alguém que também já foi vítima de má conduta policial, sei como as pessoas se sentem”, disse Stewart. “Já estive nessa posição, mas também fui promotor e as emoções não podem interferir aqui.”

O sargento Mattingly enviou um e-mail aos policiais esta semana dizendo que ele e os outros policiais na operação fracassada haviam feito “a coisa legal, moral e ética naquela noite”./NYT,REUTERS,AP e AFP 

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