Política e dignidade

A mensagem a Putin é que as pessoas forçadas a viver num jogo manipulado ou tratadas como gado acabam explodindo

É COLUNISTA, ESCRITOR, GANHADOR DO PRÊMIO PULITZER, THOMAS L., FRIEDMAN, THE NEW YORK TIMES, É COLUNISTA, ESCRITOR, GANHADOR DO PRÊMIO PULITZER, THOMAS L., FRIEDMAN, THE NEW YORK TIMES, O Estado de S.Paulo

02 de fevereiro de 2012 | 03h03

Destino: Moscou.

Aos cuidados do primeiro-ministro Vladimir Putin e do presidente Dmitri Medvedev. Assunto: A Rússia e a Primavera Árabe.

De: Um visitante do Cairo e de Moscou

Prezados senhores:

É possível que considerem que as situações no Egito e na Rússia nada têm em comum. Mas reflitam um pouco.

Sem dúvida, os dois países têm histórias extremamente diferentes. No entanto, depois de ter viajado para Cairo e Moscou nos últimos meses, posso afirmar que têm uma coisa muito importante em comum: a agitação política em ambos os países não foi inspirada inicialmente por nenhuma ideologia, mas pela mais humana das emoções - a busca da dignidade e da justiça.

A humilhação é a força mais subestimada na política. As pessoas podem absorver as dificuldades, a fome e a dor. Mostrarão gratidão por empregos, carros e benefícios. Mas - se as obrigarem a viver indefinidamente num jogo manipulado ou se se sentirem como gado que passa das mãos de um patrão para o filho ou de um político para outro - acabarão explodindo.

Foram tais emoções que provocaram os levantes no Cairo e em Moscou. Elas não desaparecem facilmente, e é por isso que os senhores estão numa situação bem mais complicada do que imaginam.

Assistiram aos vídeos caseiros que hoje são exibidos em toda a Rússia? Um dos meus favoritos foi realizado por dois paraquedistas russos que viraram cantores, postado no YouTube com o título "Os veteranos aviadores russos contra Vladimir Putin". Sua letra é dirigida especificamente ao senhor primeiro-ministro, depois do anúncio feito em 24 de setembro de que o presidente Medvedev deixaria o cargo e prepararia o caminho para o senhor, e o seu grupo (agora conhecido como "o bando dos desonestos e ladrões"), candidatar-se à presidência - e tentar mais dois mandatos de seis anos, mais 12 anos.

Os russos imediatamente começaram a calcular com que idade estarão antes de poder ver seu país governado por outra pessoa que não o senhor Putin. Muitos ficaram deprimidos - principalmente porque Medvedev disse que a "troca de cargos" é um plano de muito tempo. Entretanto, ninguém mais foi consultado e os senhores nem sequer se preocuparam em explicar por que Putin ficaria mais 12 anos.

Não surpreende que a música dedicada pelos paraquedistas a Putin fale de dignidade: "Você não é diferente de mim,/é um homem, não Deus./Eu não sou diferente de você,/sou um homem, não um bronco./Não deixaremos que você continue mentindo./Nem que continue roubando./ Somos soldados livres que defenderam a pátria".

Aleksei Navalni, advogado, militante e blogueiro, que ajudou a organizar os comícios contra o senhor, disse que nada foi mais fundamental para insuflar os protestos do que a experiência diária dos moscovitas que ficam presos no trânsito para que algum carro de luzes azuis piscando, de algum amigo de Putin escondido por trás dos vidros fumês, possa passar a toda velocidade.

"É uma questão de dignidade", disse Navalni. "Quem são essas pessoas? Por que não ligam para nossos direitos? Não importa minimamente sua carreira brilhante. Você terá de ficar encalacrado no trânsito e essas pessoas e seus filhos passarão por nós com suas luzes azuis piscando."

O senhor Putin realizou coisas consideráveis. Durante os primeiros oito anos na presidência, desde 2000, estabilizou a Rússia que caminhava a largos passos para o colapso e permitiu o surgimento de uma grande classe média urbana. A bem da verdade, o senhor não conseguiu isso com luvas de pelica, mas acompanhado por uma enorme corrupção e graças às exportações de petróleo. Mas parte dessa riqueza chegou até nós, favorecendo o surgimento de uma verdadeira classe média de profissionais e empreendedores. Eles são seus rebentos políticos acidentais - "talvez a primeira classe política independente na história da Rússia moderna", afirma Max Trudolyubov, editor da página de editorial do jornal Vedomosti - e agora eles querem influir no futuro do seu país.

Os senhores têm falado ultimamente com Mikhail Dmitriev, o presidente do Centro de Pesquisas Estratégicas? Ele vem criando grupos de debate desde 2009, dos quais, ao que me consta, seus assessores tiveram conhecimento, embora não acreditassem. Os protestos anti-Putin, concluiu Dmitriev, não foram provocados pelos desempregados, mas por "cidadãos russos altamente especializados", convencidos de que "a sociedade russa é uma estrada de duas mãos, uma para os privilegiados próximos ao poder", com suas próprias leis ou a falta delas, "e outra para o restante da população".

Conscientização. De 2009 em diante, diz Dmitriev, seus grupos de debate começaram mostrando que os integrantes dessa nova "classe média rica, dotada de amor próprio", conscientizaram-se de que "não eram reconhecidos como indivíduos merecedores, cujos direitos são iguais aos de qualquer outro, e como tais devem ser respeitados". Uma frase "apareceu de repente em todo o país: 'Não somos gado'". Foi então que compreendeu que "é uma questão de dignidade e amor próprio".

A luta entre os senhores e seus rebentos acidentais continuará por muito tempo.

Mas, meus caros senhores, não tenham dúvida: a vida política está de volta na Rússia. Tomem cuidado. Putin certamente vencerá as eleições de março, prevê Dmitriev, "mas sairá enfraquecido". A marca Putin está em declínio, afirma. "Está em queda. Isso garantirá que Putin seja um presidente fraco com menos apoio do que antes."

Portanto, argumenta Dmitriev, sua única opção para continuar sendo um político de peso é "criar um governo de coalizão que inclua a oposição, com base em eleições livres e imparciais, e ter como objetivo a adoção de um sistema político mais equilibrado e competitivo". Aí, então, eu o ouviria. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.