Política europeia e a China

É necessário um grau de consistência, de dignidade, e de uma união na abordagem da UE diante do gigante (re)emergente

Timothy Garton Ash / THE GUARDIAN, O Estado de S.Paulo

12 de novembro de 2010 | 00h00

Se quisermos entender por que a Europa precisa de uma política externa própria, devemos tentar imaginar como a situação é vista a partir do Zhongnanhai, o complexo que abriga a cúpula do Partido Comunista Chinês. Suspeito que os líderes chineses se sentam para tomar chá no edifício vizinho à Cidade Proibida e riem do comportamento indigno e grotesco dos europeus que um dia pilharam e humilharam seu país. Pois hoje, os europeus procuram o trono imperial como mendigos, implorando por oportunidades comerciais que possam salvar suas economias falidas.

Representando a Grã-Bretanha, temos David Cameron. Pela França, Nicolas Sarkozy. Portugal envia seu José Sócrates. Cada um deles defende os interesses individuais de seu país.

E quanto aos direitos humanos? E os valores europeus? Um ganhador do Prêmio Nobel da Paz injustamente aprisionado? Ah, sim, os representantes europeus mencionaram estes temas, não foi? Como fez, por exemplo, David Cameron na quarta-feira, num cuidadoso número de equilibrismo diante de uma plateia de estudantes na Universidade de Pequim. Sempre falando educadamente, é claro, pois a polidez não é também um valor europeu? E com tamanha discrição que o imperador pode fingir nem ter notado suas palavras. A menção aos direitos humanos é apenas mais um dos hábitos detestáveis que caracterizam os europeus, como cutucar o nariz em público. Quem sabe com o tempo, conforme a China amplie sua riqueza e seu poder, os demônios estrangeiros se tornem mais civilizados.

Tomada em conjunto, a conduta dos líderes europeus é um convite aberto a todas as grandes potências mundiais para a adoção de uma estratégia de dividir para governar. A Rússia de Vladimir Putin não precisou ser convidada. Os EUA de Barack Obama tentam resistir à tentação, empreendendo um sincero esforço no sentido de procurar um interlocutor único que represente o continente. A China age com ambivalência. Para Pequim, lidar separadamente com cada um destes pequenos países irritantes e pomposos é confuso e cansativo, e a economia chinesa tem muito a ganhar com um mercado europeu unificado.

Mas, para a China, o convite aberto da Europa ao divisionismo é difícil de resistir. Assim, para citar um exemplo menor, mas de um simbolismo riquíssimo, a China está atualmente tentando convencer todos - incluindo os embaixadores da UE - a boicotar a cerimônia de entrega do Prêmio Nobel da Paz a Liu Xiaobo, no dia 10 em Oslo. Em se tratando do Tibete e da Província de Xinjiang, a China insiste no total respeito à sua soberania. Mas agora Pequim está dizendo aos europeus que eles não devem participar de uma cerimônia europeia na Europa. Como vemos, a soberania chinesa é absoluta, mas a soberania de outros países é negociável.

Para a Europa, a resposta deveria ser fácil. Os 27 países membros da União Europeia deveriam simplesmente anunciar que todos seus embaixadores na Noruega participarão da cerimônia. Ponto final. Mas, em meio aos preparativos para a visita do presidente Hu Jintao a Paris na semana passada, li que o chanceler francês "disse que anunciaria antes do dia 10 se pretende participar da cerimônia de entrega do Nobel". A Europa se divide novamente. Mais risos entre as xícaras de chá no Zhongnanhai.

Quando estive em Bruxelas na semana passada para participar da reunião do Conselho Europeu para as Relações Exteriores, um centro de estudos (do qual faço parte) dedicado ao desenvolvimento de uma política externa europeia, pude conversar com alguns dos encarregados da tarefa de fazer convergir as vertentes da política externa da UE. Com uma mistura de ironia e irritação, eles observaram que, em relação à China e à Rússia, os países membros da UE quase invariavelmente desejam que a posição coletiva do bloco seja mais dura do que sua própria posição individual.

Que ninguém me interprete mal neste ponto. Não estou em hipótese nenhuma dizendo que a Europa, ou o Ocidente como um todo, deva tentar impor seus valores à China, como fez no passado. Certamente não estou sugerindo que os europeus devem se unir porque a China é uma inimiga, como foi a União Soviética na época da Guerra Fria.

Nada disso. O futuro do planeta depende do estabelecimento de um relacionamento construtivo e estável com esta potência mundial ascendente. E, de fato, temos interesses econômicos vitais na China, assim como os chineses têm na europa. Mas defendo um certo grau de consistência, dignidade e união na nossa abordagem diante do gigante (re)emergente. Defendo que nós, europeus, temos mais chance de sermos bem sucedidos na defesa de nossos interesses de longo prazo - e no avanço de nossos valores - se nos mantivermos juntos em vez de empreender tentativas separadas de nos defender. Afirmo também que aquilo que chamamos de valores europeus devem ser entendidos como proposta para um conjunto de valores universais, e uma pessoa pode vir a acreditar em valores muito semelhantes aos nossos a partir de uma trajetória como a da história chinesa, tão distinta da europeia.

De volta à casa de máquinas em Bruxelas, só agora o equipamento para uma política externa europeia supostamente unificada está sendo instalado. Das mais de 130 delegações estrangeiras da UE, 28 têm novos embaixadores. Em 2011, o novo Serviço de Ação Externa disporá do modesto orçamento de 435 milhões, mas o órgão pode ajudar a determinar como serão alocados muitos bilhões de euros em recursos da UE.

Como costuma ocorrer no caso da UE, tudo avança com mais lentidão e em meio a mais complicações do que o desejado. Na reunião de cúpula do G20 realizada esta semana em Seul, não houve uma voz única representando a Europa. A reunião entre EUA e UE da semana que vem dá a sensação de ser apenas um apêndice da reunião da Otan que a precede. O pedido da chanceler alemã, Angela Merkel, por mudanças no Tratado de Lisboa para abordar o problema do endividamento soberano na zona do euro traz consigo o risco de uma distração institucional que pode durar anos, luxo ao qual a Europa não pode se dar.

A Europa precisa avançar, caso contrário será obrigada a recuar. Pois mesmo que as coisas saiam segundo os planos, tudo aquilo que os europeus conseguiram por meio da concentração dos recursos de poder será apenas uma compensação por nossa relativa perda de poder para os reemergentes velhos-novos gigantes do Oriente. / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

É COLUNISTA E ESCRITOR

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