Política externa de Blair fracassou, diz relatório

A política externa do governo Tony Blair fracassou por ser incapaz de influenciar as decisões de Washington. A conclusão é de um relatório divulgado nesta terça-feira pelo Instituto Real de Assuntos Internacionais, um importante grupo de pesquisa independente britânico. Dentre os caminhos a serem trilhados por um futuro primeiro-ministro, o grupo defende uma aliança mais consistente com os países europeus e uma diminuição da influência americana. Em uma abrangente análise da diplomacia no governo Blair, a entidade, mais conhecida como Chatham House, reconhece que o premier foi o primeiro a reconhecer a reação dos Estados Unidos diante dos atentados de 11 de Setembro, mas critica o apoio à guerra do Iraque, fato classificado como um "erro" pelo grupo. A influente instituição londrina afirma que Blair equivocou-se ao não coordenar uma reação européia que poderia ter atenuado as ações de Washington. A Chatham House concluiu que a ocupação do Iraque foi "um terrível engano", que terá repercussões durante anos. "A raiz do fracasso (de Blair) foi a incapacidade de influenciar o governo Bush de qualquer forma significativa além do sacrifício - militar, político e financeiro - que o Reino Unido fez", disse o relatório. "Tony Blair aprendeu de maneira dura que a lealdade na política internacional conta pouquíssimo." Em parte por causa dos problemas no Iraque, Blair se viu forçado a anunciar que deixará o cargo em 2007, após dez anos como premiê. A reação de aliados do premier ao relatório foi dura. A chanceler britânica, Margaret Beckett, disse que o documento está "ridiculamente errado". "A noção de que não temos nenhuma influência (sobre o Oriente Médio), ou que não temos nenhuma influência sobre a União Européia, ou que não temos nenhuma influência sobre os Estados Unidos simplesmente não é verdade." "Quando se trata de governos, negociadores, gente que está tentando fazer acordos, gente que está tentando juntar as coisas, a influência de Tony Blair continua sendo substancial", disse a ministra. O relatório também acusa Blair de demorar a perceber as conseqüências do ressurgimento do Taleban no Afeganistão, provocado em parte pelo narcotráfico. Para a entidade, isso "é imperdoável, devido à ligação entre o consumo de heroína nas ruas britânicas e o fortalecimento dos feudos militares no Afeganistão." SucessorO relatório conclui que o sucessor de Blair precisará forjar uma relação mais estreita com o resto da Europa. "O que os governos dos EUA querem é uma União Européia que possa dar uma real contribuição à agenda da segurança e da política internacionais, e qualquer governo europeu com habilidade diplomática para atrair o apoio da UE será enormemente apreciado." O texto diz ainda que o próximo premiê tem a chance de dar esse papel à Grã-Bretanha, desde que o país seja levado a sério por seus parceiros europeus. Para isso, defende o relatório, a Grã-Bretanha teria de reconsiderar sua oposição à adoção do euro como moeda e retirar os controles fronteiriços dentro do bloco europeu - ações que provavelmente seriam desconfortáveis para os dois principais candidatos à sucessão de Blair. O ministro trabalhista das Finanças, Gordon Brown, critica ostensivamente os fracos resultados econômicos da zona do euro e não esconde suas inclinações pelos EUA. Já o líder da oposição conservadora, David Cameron, demonstra a intenção de se alinhar com os partidos "eurocéticos" dos outros países da UE.

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