AP/Nam Y. Huh
AP/Nam Y. Huh

Política externa de Trump rompe com tradição dos EUA

Líder na disputa republicana, magnata questiona alianças e sugere que Japão e Coreia do Sul deveriam ter armas nucleares

Cláudia Trevisan, CORRESPONDENTE / WASHINGTON, O Estado de S. Paulo

31 de março de 2016 | 05h00

Líder da corrida presidencial republicana, Donald Trump sugere que Japão e Coreia do Sul deveriam ter armas nucleares, defende a revisão da aliança dos EUA com a Europa e promete deixar de comprar petróleo da Arábia Saudita caso o país não mobilize tropas contra o Estado Islâmico.

Se adotadas, as propostas destruiriam os pilares que sustentam a relação dos americanos com seus aliados desde o fim da 2ª Guerra. 

A posição favorável à obtenção de armas nucleares por Japão e Coreia do Sul contraria o esforço de não proliferação e foi apresentada dias antes da cúpula nuclear que começa amanhã em Washington. O fio condutor das propostas de Trump é sua visão de que os EUA são explorados por aliados, que deveriam assumir a responsabilidades por sua própria defesa. 

Para o magnata, o país está quebrado e não pode mais manter intactos os acordos desenhados no passado para garantir estabilidade e livre fluxo de comércio em diferentes regiões do mundo. Considerações geopolíticas não entram em seu cálculo, marcado por um raciocínio basicamente comercial. 

“Nós somos uma nação pobre, uma nação devedora”, disse Trump em entrevista no New York Times, no início da semana. Suas posições chocam aliados, integrantes de seu próprio partido e especialistas em política externa nos EUA. 

Além de contrariar princípios defendidos durante décadas nos EUA, as propostas muitas vezes são incoerentes e inconsistentes – o candidato declara que se manterá “neutro” na disputa entre Israel e Palestina, mas promete mudar a Embaixada dos EUA de Tel-Aviv para Jerusalém, gesto favorável a Israel que incendiaria os ânimos no Oriente Médio. 

“Pela primeira vez desde a 2ª Guerra, os EUA seriam liderados por um presidente que não acredita na importância de fortes alianças e no desempenho do papel de ‘poder hegemônico benigno’ na ordem internacional”, disse ao Estado Michael O’Hanlon, codiretor do Centro para Segurança e Inteligência no Século 21, do Brookings Institution, um dos principais centros de estudos de Washington.

Em sua opinião, o bilionário acabaria subvertendo os compromissos dos EUA com aliados. “Na América Latina, o impacto não seria tão grande, já que a probabilidade de guerra entre os Estados é baixa”, disse O’Hanlon. “Mas, em outras regiões, a retirada ou desengajamento dos EUA poderia incitar potenciais agressores, da Coreia do Sul ao Irã, da Rússia à China.” 

Daniel Serwer, professor da Escola de Estudos Internacionais da Universidade Johns Hopkins, também vê nas propostas de Trump uma “ruptura” com o consenso internacionalista que prevaleceu em Washington durante décadas. “Eleger Trump enfraqueceria a liderança americana e traria problemas com nossos aliados. As pessoas estão muito preocupadas na Europa, no Golfo Pérsico e na América Latina”, disse Serwer.

Para ele, encorajar Japão e Coreia do Sul a terem armas nucleares é uma posição “idiota”, que reverteria o sucesso obtido pelos EUA na prevenção da proliferação atômica nas últimas décadas. Serwer ressaltou que os dois principais aliados americanos na Ásia já bancam parte dos gastos com defesa.

Em sua avaliação, um governo Trump agravaria a já difícil situação no Oriente Médio. “Ele não apresentou nenhuma proposta coerente para combater o EI.” Segundo Serwer, os EUA compram pouco petróleo da Arábia Saudita e a ameaça teria impacto econômico. “O único efeito seria inviabilizar a colaboração dos sauditas em qualquer assunto”, ressaltou.

A aliança com Japão e Coreia do Sul está na base da política dos EUA para a Ásia. Depois da 2ª Guerra, Tóquio aprovou uma Constituição pacifista, pela qual abriu mão do direito de declarar guerra e de manter Forças Armadas com potencial de agredir outras nações. A contrapartida é o compromisso americano de defender o país. 

Diante da ameaça de uma Coreia do Norte com bombas atômicas, Trump acredita que Japão e Coreia do Sul poderiam ter armas semelhantes, o que reduziria os gastos americanos com a defesa de seus aliados.

Nesta quinta-feira, o presidente Barack Obama reforçará o compromisso com os dois países em reuniões que terá na Casa Branca com o primeiro-ministro japonês, Shinzo Abe, e com a presidente da Coreia do Sul, Park Geun-hye. Os termos da aliança, porém, serão colocados em xeque em uma eventual Casa Branca ocupada por Trump.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.