Política externa e campanha presidencial nos Estados Unidos

Candidatos deverão explicar durante processo como irão abordar questões como comércio, mudança climática e crises internacionais

RICHARD N. HAASS, PROJECT SYNDICATE

20 de junho de 2015 | 02h03

É impossível saber quem os eleitores americanos vão escolher como seu próximo presidente. Mas é certo que essa escolha terá consequências profundas para todo o mundo, tanto positivas quanto negativas.

Mais do que qualquer outra coisa, isso reflete a contínua realidade do poder americano. Reflete também a quase certeza que o próximo presidente herdará um mundo imerso em considerável tumulto. Aquilo que o/a presidente escolher fazer, e a maneira escolhida por ele/ela para fazê-lo, terá grande importância para os habitantes do mundo.

Dito isso, é difícil saber qual o papel a ser desempenhado pela política externa em determinar quem será o próximo ocupante do Salão Oval. Ainda faltam 17 meses para as eleições de 2016. Muita coisa pode - e vai - acontecer até lá.

Dois processos políticos correlacionados e distintos - as disputas internas pela nomeação presidencial entre democratas e republicanos - vão se desenrolar no próximo ano. A ex-secretária de Estado Hillary Clinton é a principal candidata democrata, embora a nomeação dela não seja garantida. Seja como for, a política externa deve desempenhar um papel pequeno nessa decisão, pois os assuntos que mais preocupam os eleitores que provavelmente participarão das eleições primárias democratas são de natureza doméstica e econômica.

O lado republicano é muito mais abarrotado e incerto, e parece muito mais provável que a política externa desempenhe um papel importante na escolha do nomeado do partido. A economia está melhorando sob o comando do presidente Barack Obama, fazendo dela um alvo político menos atraente. Em comparação, as turbulências globais deram aos republicanos mais espaço para atacar Obama e os democratas.

Independentemente disso, alguns temas da política externa devem dominar o debate em ambos os partidos. Um deles é o comércio, questão doméstica e internacional. Obama está solicitando Autoridade para Promoção do Comércio, um prelúdio necessário para a obtenção do apoio do Congresso à Parceria Trans-Pacífica (TPP), que reduziria as barreiras comerciais entre os EUA e 11 países do Círculo de Fogo do Pacífico. Muitos dos candidatos republicanos, mas nem todos, defendem a TPP; entre os democratas é maior a hostilidade ao acordo, o que torna a defesa da parceria mais arriscada para os candidatos democratas.

Irã. Outro tema que deve dominar os debates pré-eleitorais de ambos os partidos é o Irã e as negociações internacionais para conter o programa nuclear iraniano. Podemos esperar que muitos dos candidatos republicanos façam críticas às propostas de acordo. Perguntas serão feitas a respeito sobre quais sanções seriam suspensas e quando; a respeito dos termos das inspeções de adequação; e quanto ao que vai ocorrer depois que alguns dos limites às atividades nucleares iranianas expirarem. É mais provável que os candidatos democratas se mostrem favoráveis aos termos de um acordo, sejam eles quais forem; mas certamente haverá diferenças de opinião entre os candidatos de ambos os partidos.

Um terceiro tema é a mudança climática. O papa Francisco tornou o tema mais relevante ao divulgar um importante pronunciamento a respeito dele. Da mesma maneira, o planejamento para a Conferência das Nações Unidas sobre a Mudança Climática, que será realizada em dezembro em Paris, vai manter o assunto no noticiário. Os democratas devem apoiar compromissos americanos mais amplos, embora as diferenças de opinião sejam igualmente esperadas entre os candidatos de ambos os lados.

Um quarto conjunto de temas envolve o Oriente Médio. Nenhum dos dois lados parece interessado numa intervenção militar de larga escala no Iraque ou na Síria para fazer frente ao Estado Islâmico. Mas haverá o debate acalorado - e muita hipocrisia - a respeito daquilo que deveria ou não ser feito.

Temos também uma série de outros temas, da assertividade chinesa na Ásia ao revanchismo russo na Ucrânia. A retórica será poderosa, principalmente por parte dos republicanos.

Espera-se que os processos de nomeação dos dois partidos possam nos dar uma ideia de como os candidatos vencedores respondem a três perguntas importantes.

A primeira envolve a importância que os candidatos atribuem à política externa, em termos absolutos e relativos. Se pensarmos na segurança nacional como dois lados de uma mesma moeda, com a política externa de um lado e a política doméstica do outro, qual a probabilidade de cada um desses lados cair para cima quando o próximo presidente lançar a moeda para o alto? Trata-se do velho debate envolvendo a melhor forma de definir a alocação de recursos, seja no caso dos dólares ou da atenção do presidente.

Em segundo lugar, quais são os propósitos e prioridades da política externa? A tradição realista das relações internacionais tem como foco influenciar a política externa de outros países, com menor ênfase nos seus assuntos internos. A principal tradição alternativa adota uma perspectiva oposta, defendendo que os assuntos internos dos países estrangeiros são mais importantes, seja por questões morais ou de princípios, ou por acreditarmos que o comportamento doméstico de um governo afete sua conduta no exterior.

De acordo com essa visão idealista, os países de governos democráticos que tratam seus cidadãos com respeito apresentam maior probabilidade de tratar os cidadãos de outros países com respeito. O problema, é claro, está no fato de a tentativa de influenciar os rumos de outras sociedades ser em geral uma proposta difícil e voltada para o longo prazo; enquanto isso, há problemas globais urgentes que precisam ser abordados, às vezes com a assistência de regimes indesejáveis.

A última pergunta envolve a abordagem dos candidatos para a execução da política externa. Qual será a mistura de unilateralismo e multilateralismo preferida por eles, e a quais ferramentas - da diplomacia e das sanções até as operações de espionagem e a força militar - vão recorrer com maior frequência?

As respostas para essas perguntas devem se tornar claras durante a campanha. Ao longo do caminho, os americanos terão uma ideia melhor de qual candidato merece seu voto, e em todo o mundo entenderemos melhor o que devemos esperar em janeiro de 2017, quando o 45.° presidente dos Estados Unidos fizer seu juramento de posse. / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

É PRESIDENTE DO CONSELHO DE RELAÇÕES INTERNACIONAIS E PUBLICOU RECENTEMENTE 'FOREIGN POLICY BEGINS AT HOME: THE CASE FOR PUTTING AMERICA'S HOUSE IN ORDER'

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