Política interna domina viagem de Bush

No fim, o tema que dominou a primeira viagem do presidente dos Estados Unidos, George W. Bush, àsAméricas do Sul e Central foi a briga interna entre republicanos e democratas pelo voto dos norte-americanos de origem hispânica. Com a agenda da visita esvaziada por antecipação pela falta de iniciativas concretas a anunciar, o assunto passou a dominar as preocupações da Casa Branca no sábado.No momento em que Bush chegava a Lima, procedente de Monterrey no México, o presidente da Assembléia Legislativa da Califórnia Antonio Villaraigosa, ocupava o espaço reservado aos democratas para responder ao discurso radiofônico semanal do presidente, e disse que a verdadeira razão por trás de sua visita ao México, Peru e El Salvador pouco tinha que ver com as relações dos EUA com os três países ou com os motivos alegados por Bush: a promoção do comércio, a discussão de políticas de imigração, a ajuda externa norte-americana e o compromisso de seu governo decombater o narcotráfico nos Andes.A visita, disse o líder democrata da Califórnia, foraorganizada "como parte de uma estratégia orquestrada paraganhar simpatia e captar o voto latino nos EUA". Villaraigosa acrescentou que o estratagema não daria resultado porque, segundo ele, "nossa comunidade sabe qual é a diferença entre retórica e resultados".No domingo, já em San Salvador, Bush tomou a incomuminiciativa de acusar o golpe de uma briga doméstica durante uma viagem internacional e classificou o ataque de "políticabarata".A troca de farpas ganhou espaço na cobertura da viagem naimprensa norte-americana e acabou acentuando o sentimento de frustração que o tour deixou entre os analistas da políticahemisférica em Washington."A única coisa notável da visita foi o anúncio do plano daadministração de aumentar em 50% o orçamento da ajuda externa dos Estados Unidos, durante a reunião de Monterrey, mas isso tem muito pouco a ver com os países da América Latina, que em sua maior parte quer beneficiar-se não da ajuda americana, mas do comércio com os EUA e de políticas de desenvolvimento", disse Peter Hakim, presidente do Diálogo Interamericano. "Fora disso, a visita é totalmente esquecível."Com a aprovação do mandato fast track (ou TPA, de Autoridade para Promoção Comercial) para negociar novos acordos comerciais ainda pendente no Congresso, Bush desembarcou no Peru para um encontro com os presidentes dos países andinos sem poder dar-lhes garantia sobre quando os EUA renovarão uma lei de preferências tarifárias para a região que expirou em janeiro.Essa lei e a passagem do fast track dependem de complexasnegociações sobre compensações a trabalhadores americanosdeslocados em conseqüência de acordos de liberalização comercial e também do cumprimento, pela liderança republicana na Câmara, da promessa de impor novas barreiras às importações de têxteis.Eles firmaram tal compromisso para conseguir a aprovação de uma versão fortemente condicionada do TPA, por apenas um voto, em dezembro. Pela mesma razão, Bush chegou domingo a San Salvador sem condições de levar adiante o plano que anunciou em janeiro de explorar um acordo de livre comércio com os países da América Central. Para estes, uma das principais motivações para negociar tal acordo é garantir mais espaço no mercado de têxteis dos EUA.Diante das remotas chances de isso vir a acontecer no futuroprevisível, principalmente agora que o lobby dos têxteis pedeproteção igual à que Bush deu à indústria siderúrgica, asreuniões do presidente norte-americano com seu colegasalvadorenho, Francisco Flores, e, mais tarde, com os demaislíderes da região, ficaram apenas no enunciado das boasintenções.

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