Política interna move crise entre Bogotá e Caracas

Uribe e Chávez veem no conflito sobre as bases militares chance para ganhar popularidade em casa

Ruth Costas, O Estadao de S.Paulo

28 de agosto de 2009 | 00h00

As causas da recente crise diplomática entre Caracas e Bogotá vão muito além do acordo que permitirá aos EUA usar bases militares na Colômbia. Segundo analistas ouvidos pelo Estado, as tensões são sustentadas por interesses políticos, ressentimentos e disputas ideológicas arraigadas, que ofuscam quaisquer considerações pragmáticas quando o assunto é a relação entre os dois vizinhos. Começando pelos interesses: "Tanto o presidente venezuelano Hugo Chávez como o colombiano Álvaro Uribe veem na disputa uma oportunidade para fortalecer o sentimento nacionalista em seus países e, com isso, sua popularidade", diz Fernando Gerbasi, do Centro de Estudos Estratégicos e Relações Internacionais da Universidade Metropolitana, em Caracas. Na Colômbia, o Congresso está prestes a aprovar um referendo que pode permitir uma nova reeleição de Uribe. Gerbasi explica que Chávez também passa por um momento delicado internamente, mas por questões ligadas à queda do petróleo, à inflação e à alta da criminalidade. "Sua aprovação hoje está entre 38% e 40% e a repercussão das recentes leis eleitorais e da área de educação foram muito ruins", afirma o analista. "Chávez de fato precisava de um inimigo externo para desviar a atenção da população", concorda Francine Jácome, do Instituto Venezuelano de Estudos Sociais e Políticos. "Mas não é certeza que terá sucesso nessa estratégia, porque os laços culturais e históricos com a Colômbia são fortes. Numa crise diplomática em março de 2008, 80% dos venezuelanos se disseram contra um conflito."Os ressentimentos por trás da crise atual estão justamente ligados ao conflito do ano passado. Na época, os problemas começaram quando Uribe destituiu Chávez da mediação das negociações para a libertação de reféns das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc). Chávez pediu o reconhecimento das Farc como grupo beligerante, enfurecendo o governo colombiano. Em março, a Colômbia atacou um campo da guerrilha no Equador e a Venezuela chamou seu embaixador em Bogotá de volta em solidariedade a Quito. O presidente venezuelano chegou a enviar tropas para a fronteira e ordenou a substituição das importações colombianas. O conflito acabou se resolvendo com um aperto de mãos numa reunião do Grupo do Rio na República Dominicana transmitida ao vivo, mas a troca de acusações não terminou por aí. Bogotá disse ter encontrado no computador de um guerrilheiro provas do apoio da Venezuela e do Equador às Farc. No mês passado, fontes colombianas também anunciaram ter apreendido com a guerrilha lança-granadas adquiridos na Venezuela. O anúncio do acordo com os EUA foi feito dias depois. "Uribe percebeu que os planos de Chávez de expandir sua revolução podem afetá-lo e está dando uma resposta. Já Chávez vê a Colômbia como um bastião do conservadorismo e um empecilho para o aumento de sua influência na região", diz Gerbasi. "Com ideologias e pontos de vida tão diferentes, não há sinais de que os choques terminem tão cedo."

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