John Moore/Getty Images/AFP
John Moore/Getty Images/AFP

Política migratória do Ocidente se choca com valores

Quando governos traçarem suas ações, devem se lembrar do desconforto desta semana

THE ECONOMIST, O Estado de S.Paulo

22 de junho de 2018 | 05h00

No Texas, um bebê é separado de sua mãe pelo governo federal para desencorajar a vinda de outros. No Mediterrâneo, um barco com cerca de 630 migrantes a bordo é impedido de atracar em um porto italiano e o vice-premiê da Itália busca aumentar sua popularidade ameaçando expulsar os ciganos. Em Berlim, um governo de coalizão pode cair por não conseguir lidar com a imigração. Essas coisas podem parecer separadas, mas estão conectadas.

O fracasso em obter consentimento político para a imigração tem estado envolvido nos maiores levantes do Ocidente: Brexit, a vitória de Donald Trump, o controle de Viktor Orbán sobre a Hungria, a ascensão da Liga na Itália. Todos esses eventos levaram a política a uma direção preocupante para os que preferem seus mercados livres e suas sociedades abertas. Isso cria uma dolorosa situação de troca de uma coisa por outra que seja mais vantajosa.

Caso se resista às exigências de uma aplicação mais dura das leis de imigração, os eleitores podem continuar votando em candidatos que se empenham em culpar os estrangeiros. Caso se aceite as soluções propostas pelos gostos de Trump ou Orbán, as sociedades ocidentais estarão contrariando seus valores.

Dissuasão. Tome-se a abordagem da Casa Branca, que resultou em 2.342 crianças sendo separadas de suas famílias. Usar o sofrimento das crianças como fator de dissuasão estava errado. Argumentar que o governo precisou agir dessa maneira para defender a lei é falso. Nem George W. Bush nem Barack Obama, que deportaram muito mais pessoas anualmente do que Trump, recorreram a separações.

Afirmar que era necessário controlar a imigração é duvidoso. Em 2000, o governo impediu que 1,6 milhão de pessoas cruzassem a fronteira sul – em 2016, quando Trump foi eleito, os números haviam caído 75%. 

A dissuasão, sem dúvida, desempenhou seu papel, mas a prosperidade e uma queda na taxa de natalidade no México certamente tiveram maior importância. Não é de admirar que, após o clamor público, Trump tenha abandonado a política.

Outros exemplos de dissuasão não tiveram resultado melhor.

O governo britânico concluiu, a partir do referendo do Brexit, que deveria redobrar os esforços para criar um “ambiente hostil” aos imigrantes. Acabou enviando notificações a pessoas que haviam chegado do Caribe à Grã-Bretanha, nos anos 50, ordenando-lhes que apresentassem documentos que provassem que eram britânicos. O abuso, a detenção e as deportações que se seguiram tiveram como resultado a renúncia do secretário do Interior. 

Da mesma forma, em 2015, os governos europeus argumentaram que o resgate de barcos que transportavam migrantes do norte da África apenas os incentivava a arriscar essa jornada. Então, cerca de 1.200 pessoas morreram afogadas em dez dias e os europeus ficaram horrorizados com a crueldade praticada em seu nome.

Em princípio, os países devem ter condições de proteger suas fronteiras e defender a lei. Na prática, uma política de negligência convida a um retrocesso que ajuda pessoas como Matteo Salvini, líder da Liga, ou Horst Seehofer, ministro do Interior da Alemanha, que ameaçou derrubar Angela Merkel. 

A indignação se alimenta dela mesma. Salvini quer deportar centenas de milhares de migrantes da Itália. Seehofer quer enviar dezenas de milhares de imigrantes para a Itália.

O ideal platônico de uma política migratória é aquele que tem o consentimento do país anfitrião. Trata os migrantes com humanidade, mas também com firmeza, devolvendo rapidamente aqueles que chegaram ilegalmente ou cujos pedidos de asilo não foram aceitos. Isso é fácil de recomendar, mas difícil de colocar em prática.

Os tribunais estão sobrecarregados, muitos casos são difíceis de julgar e os países pobres podem não querer seus cidadãos de volta. E assim os países ricos tendem a pagar os mais pobres para instalar vastos cativeiros para humanos, como a Itália faz com a Líbia e a União Europeia com a Turquia. Isso envolve algo que não seria tolerado em casa, mas é de algum modo aceitável porque está fora de vista.

Os europeus estavam certos em condenar a separação das crianças. Mas eles enfrentam uma onda de migração de seus vizinhos que vêm de países populosos. / TRADUÇÃO DE CLAUDIA BOZZO 

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