Juan Medina/Reuters
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Mario Vargas Llosa
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Politicamente indesejável

Livro busca promover o liberalismo, destacar defeitos do governo espanhol e defender a Espanha

Mario Vargas Llosa, O Estado de S.Paulo

05 de dezembro de 2021 | 05h00

O excelente livro que acaba de publicar Cayetana Álvarez de Toledo não é o que costumam escrever políticos, homens ou mulheres prudentes que em geral omitem o essencial e costumam se ater à periferia das confissões. Cayetana vai a fundo desde o princípio: sua família, suas nacionalidades, a maneira como decidiu fazer-se espanhola, suas paixões (que são suas filhas, antes até da política), uma síntese de sua vida, sua passagem por Oxford e a dívida que contraiu com o professor Elliot, sob direção do qual fez sua tese doutoral e aprendeu a investigar, passando alguns anos em arquivos, entre livros e jornais. Sua passagem por Oxford deixou nela uma marca: ela escreve grandiosamente e diz o necessário com palavras sempre justas. 

Trata-se de um grande livro político, certamente, mas de uma política que revela suas intenções a cada página, falando sobre o quanto lhe dói que Pablo Casado tenha encerrado a atuação dela como porta-voz do Partido Popular e das intrigas de seus adversários no seio desse partido, que ela vê concentradas em seu secretário-geral, a quem atribui sua súbita defenestração. 

Liberalismo

Mas isso é só uma parte – e, acredito, a menos importante – de seu livro, pois o maior número de páginas da obra está dedicado a promover o liberalismo, a sublinhar os defeitos deste governo e à defesa da Espanha, cujo destino ela vê cada vez mais democrático e como sede das reformas que a converterão em um país desenvolvido, justo para todos os membros e povoadores e no comando, ou pouco abaixo, da União Europeia, à que defende de maneira militante. 

O livro é muito bem escrito e é impossível não lê-lo com a paixão que Cayetana depositou em suas páginas, uma paixão vigiada e contida pela razão, com que a autora explica com abundância de detalhes o que defende, o que ataca e os incidentes que a levaram a escrever. Não sou tão imparcial ao escrever esta resenha; sou membro de Libres e Iguales, a organização fundada por Cayetana – que a levou à luz pública, acrescentarei – e já escrevi uma coluna em sua defesa, quando ela foi apartada do cargo que ostentava em seu partido como porta-voz. Creio, no entanto, que as críticas que faz neste ensaio ao Partido Popular são muito menores, perfeitamente dentro do que escrevem, por exemplo, sobre os Partidos Republicano e Democrata nos Estados Unidos seus próprios militantes, de maneira que, acredito, seria escandaloso que o Partido Popular aproveitasse esta circunstância – o livro publicado – para separá-la de suas fileiras, como costumam fazer os partidos autoritários. Seria um gravíssimo erro, pois Cayetana, apesar das coisas que dizem o contrário em seu livro, é a meu juízo uma militante leal e convencida do que este partido de direita oferece como remédio para os males da Espanha. 

No que sim concordo com ela cem por cento é sobre suas críticas ao nacionalismo, que provocou guerras horríveis e foi uma fonte de inimizades e ódios absolutamente gratuitos e um dos problemas mais difíceis de resolver em todas as partes, assim como na própria Espanha. Ela acusa com severidade a direita de ter gerado esse assunto, fazendo concessões a independentistas catalães em relação à língua dominante de maneira irresponsável, sem medir as consequências a médio e longo prazos, em páginas que eu assinaria embaixo sem vacilar. Também sobre a necessidade da militância política, sem se deixar abater pela ingratidão que costuma advir dessa experiência, na qual ela vê a razão de ser da cidadania livre, ao mesmo tempo fonte de progresso e justiça social. E, certamente, sobre a defesa da liberdade como postulado básico de todas as mudanças que possam e queiram efetuar nos programas de um partido democrático.

Transição

Seu livro é uma defesa da transição e da sensatez que luziram tanto da direita como da esquerda na elaboração da atual Constituição e no exemplo que a Espanha deu ao mundo naqueles anos que se seguiram à morte de Franco. Tudo aquilo ficou para trás, certamente, e agora é tempo de que os problemas, que o país arrastava e escondia sob um prudente véu, encontrem solução. Estes problemas não são menores e poderiam causar algo daquela violência empoçada à que Cayetana se refere muitas vezes nas melhores páginas de seu ensaio. 

Sua hostilidade ao feminismo recalcitrante está muito bem explicada em seu livro, mas tenho de dizer que a mim não me convence totalmente. Ela diz que não se pode acusar a todos os homens pela condição postergada e vexatória que é, em boa parte do mundo, a situação das mulheres, e estas devem atuar em defesa própria evitando os privilégios porque, se estes prevalecem, no futuro o problema seria o mesmo, só que ao reverso. E, certamente, tem razão em parte; mas e as mulheres que não podem nem têm condições de defender-se e, portanto, são as vítimas do “machismo” que reluz pelas ruas deste e de outros países com obscena insolência e, por exemplo, aqui na Espanha, deixa saldos diários de vítimas espancadas e assassinadas? Para corrigir semelhante barbárie faz falta um sistema legal que favoreça a mulher, sobretudo em países onde a condição feminina é ainda atropelada com frequência e em muitos países livres do chamado primeiro mundo. 

A personagem central deste livro se revela por completo em suas páginas, mostrando seus restaurantes e pratos favoritos, os lugares onde vai se refugiar quando a tensão política em que vive parece a ponto de explodir e aonde leva as filhas para aproveitar com elas uns dias ou horas de paz. Ela também cita amigos e adversários, com claridade meridiana, suas leituras, a música que escuta e o que a acalma quando está enervada, e, em suma, nos oferece um retrato claro e direto de sua vida cotidiana. São as páginas que mais me comovem neste belo livro, que revela uma vida ávida e sobressaltada pelas imprevisibilidades de que são feitas as jornadas de alguém que se aventura aos excessos e traumas da política. 

E a Espanha tem uma grande vantagem sobre o restante dos países da Terra. Está entre as nações que constituem a União Europeia, que escolheram a democracia e a liberdade como o melhor caminho para alcançar seus objetivos. O país deve funcionar, mais ou menos de maneira disciplinada, dentro de um grupo de nações afins, que não vão permitir que nenhum dos países que a compõem se exceda ou fique para trás. Isso quer dizer que as liberdade que possam ser concedidas aos países-membros têm limites, que não podem ser excedidos nem ameaçados. Os riscos que a Espanha corre serão limitados, então, sempre e quando não se transgridam certas fronteiras, que evitam que o país repita a experiência atroz da guerra civil e da ditadura franquista. 

O livro de Cayetana Álvarez de Toledo nos recorda de que a Espanha é um país que deve mudar e aperfeiçoar-se a si próprio, adaptando-se cada vez mais e melhor às contingências e aos problemas que deve ir resolvendo à medida que se apresentem. Todos esses problemas estão descritos nas páginas deste livro, com uma defesa empenhada de certas soluções, feitas com a inteligência e a cultura de uma mulher extraordinária. Seria uma lástima que passasse em branco o que ela oferece com tanta claridade, franqueza e brilhantismo. / TRADUÇÃO DE GUILHERME RUSSO


*É PRÊMIO NOBEL DE LITERATURA 

© DIREITOS DE PUBLICAÇÃO EM TODAS AS LÍNGUAS RESERVADAS PARA EDICIONES EL PAÍS S.L. 2021 

 

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