Frente Nos
Frente Nos

Políticos conservadores da Argentina buscam aproximação com Bolsonaro

Candidatos às eleições de outubro têm se inspirado no sucesso do conservadorismo brasileiro e tentam aproveitar onda bolsonarista; maioria, no entanto, hesita em elogiar a ditadura, um dos períodos mais sangrentos da história argentina

Luciana Dyniewicz, O Estado de S.Paulo

13 de julho de 2019 | 15h19

Candidatos às eleições de outubro na Argentina têm se inspirado no sucesso do conservadorismo no Brasil e disputam o título de “Bolsonaro argentino”. Na briga pela presidência, Juan José Gómez Centurión é o candidato, um veterano da Guerra das Malvinas que já fez parte do governo do presidente Mauricio Macri. No interior, o deputado Alfredo Olmedo, pré-candidato ao governo de Salta (uma das províncias mais pobres do país), é quem levanta bandeiras contra a “ideologia de gênero” e a favor das “duas vidas”, ou seja, contra a legalização do aborto.

Militar reformado, Centurión tem como candidata a vice a diplomata Cynthia Hotton. Ambos tiveram, na quarta-feira, uma reunião por videoconferência com Steve Bannon, ex-estrategista de campanha de Donald Trump, agitador de uma onda nacionalista de direita em todo o mundo e com contato com a equipe de Bolsonaro. Foi a quarta reunião de Cynthia com o americano e a primeira de Centurión.

“Bannon está interessado em acompanhar o que está acontecendo na Argentina e lhe pareceu muito interessante nossa chapa”, disse Cynthia. Sobre a possibilidade de o americano trabalhar na campanha, a diplomata afirmou apenas que eles seguirão em contato. “Vamos continuar conversando. O que todos veem é que nossa chapa tem muita semelhança com a de Bolsonaro. Centurión é um católico muito comprometido com os valores. Eu sou evangélica. Há várias coincidências.”

Segundo Centurión, o principal ponto de convergência é que tanto ele como o presidente brasileiro expressam a “reconversão da identidade nacional” em cada país. “Temos muitas características em comum, que hoje me parecem características quase universais de um modelo de uma direita republicana moderna”, afirmou. “Cada país e seu povo têm a própria expressão de valores. Mas eu poderia ser o equivalente a Bolsonaro. Não exatamente igual, porque ele é um produto tipicamente brasileiro.”

Para Centurión, a falta de valores na sociedade argentina é responsável pelo fracasso do país. “Propomos assumir o governo porque a classe política, nos últimos 50 anos, nos levou a um nível alto de fracasso, de endividamento e de pobreza. Isso ocorre porque ela usou como base um modelo absolutamente afastado dos valores fundacionais da Argentina”, disse ele, que também já foi vice-presidente do Banco de La Nación e diretor da Aduana argentina.

O fim do debate para legalizar o aborto e da ideologia de gênero – “um modelo ditatorial e totalitário que avança desde alguns setores do Estado em detrimento dos direitos individuais das pessoas”, segundo Centurión – são as principais bandeiras da chapa.

A possível legalização do aborto – que foi aprovada pelos deputados no ano passado, mas derrubada pelos senadores – foi um propulsor para a formação da chapa, diz o militar reformado. “Estávamos em desacordo com a agenda do aborto, que havia sido impulsionada pelo governo.” Apesar de vários membros do governo Macri serem contrários à legalização do aborto, o presidente não bloqueou o debate sobre o assunto no Congresso e afirmou que não vetaria a medida se fosse aprovada. 

Na área econômica, a Frente NOS, coligação dos candidatos, defende intervenção mínima do Estado e redução dos gastos públicos e dos impostos. O nome NOS é uma referência à primeira palavra que aparece na Constituição argentina.

Ao contrário de Bolsonaro, porém, o candidato afirma que houve, sim, uma ditadura em seu país, mas ela veio após um ataque de “organizações armadas, que eram parte da estratégia cubana para a conquista do poder do Estado na Argentina”. Cynthia diz ser “totalmente contra ditaduras”. Afirma, por outro lado, que a chapa defende os direitos humanos dos militares presos por crimes contra a humanidade cometidos na ditadura (1976-1983).

O assunto é sensível no país. Militares condenados e com mais de 70 anos querem cumprir suas penas em prisão domiciliar. Pela lei argentina, isso só não é permitido em casos de crimes contra a humanidade. Hoje, há 95 militares idosos presos, mas entidades de parentes de vítimas da ditadura (como as Avós da Praça de Maio, que tem forte apoio popular) se opõem à liberdade dos condenados.

Pretensões

Outra diferença entre a candidatura de Centurión em relação à de Bolsonaro é a expectativa. Enquanto o brasileiro começou apostando que chegaria ao Planalto, os argentinos têm uma ambição mais modesta. A ideia é que a campanha lhe dê visibilidade e ajude a eleger deputados conservadores, que possam, no futuro, montar uma espécie de bancada evangélica.

“Vamos fazer uma eleição muito boa e colocar uns cinco ou seis deputados na Câmara. Na Argentina, as eleições legislativas são a cada dois anos. Colocando essa quantidade agora, podemos triplicar em 2021”, diz o veterano de guerra.

Cynthia acredita que a chapa poderá conseguir cerca de 10% dos votos. “Com isso, podemos mudar a agenda, independentemente de quem seja o próximo governo.” Ela aposta em oferecer o apoio a algum candidato no segundo turno, desde que ele seja contra o aborto. Em troca do apoio, poderia conseguir algum ministério.

Ceticismo

A possibilidade de políticos conservadores avançarem muito nas eleições de outubro é questionada por especialistas. Sergio Berensztein, que estuda a influência evangélica na América Latina, afirma que ainda não há uma coordenação efetiva entre a classe na Argentina, como ocorre no Brasil. “Tenho dúvida se, na eleição, eles terão força. O apoio aos militares não é popular aqui. Eles são muito desprestigiados.”

Daniel Kerner, da Eurasia, lembra que a ditadura é um assunto mais delicado na Argentina do que no Brasil. Ele acredita, porém, que o conservadorismo pode crescer entre os antikirchneristas, críticos a grupos de direitos humanos, como as Mães da Praça de Maio. “Seria mais uma posição do eleitorado contra esses grupos do que a favor da ditadura. Parte do eleitorado antikirchnerista vê com ojeriza esses grupos”, afirma.

As Mães da Praça de Maio receberam apoio dos governos de Néstor e Cristina Kirchner e há denúncias de corrupção contra Hebe de Bonafini, uma das fundadoras do grupo. Sobre a candidatura de Alfredo Olmedo, Kerner diz que ela pode crescer em razão da debilidade do peronismo – corrente rival de Olmedo – na Província de Salta.

Nas eleições em que Olmedo foi eleito, em 2015, sua coligaçãoteve a maior votação da província, com 23%. Na Argentina, não se vota em um candidato específico para a Câmara, mas em uma lista de deputados.

 

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.