Políticos fazem malabarismo na crise de imigração nos EUA

O imigrante ilegal nos EUA, como em qualquer parte do mundo, é um equilibrista. Ele nunca sabe quando vai cair na malha policial, quando será deportado. É o drama de um crescente número de brasileiros que vieram tentar a sorte no país dos sonhos e oportunidades. O malabarismo só tende a crescer. Na verdade, é a própria sociedade americana e os políticos que estão se equilibrando perigosamente na questão da imigração. E os grandes malabaristas são os republicanos. O partido do presidente George W. Bush está profundamente dividido, para não dizer desequilibrado, sobre o que fazer com os ilegais que já estão aqui e os que querem entrar.Esta semana, o Comitê de Justiça do Senado votou a favor de legalização da situação dos ilegais (estimados em 11 milhões de pessoas) e eventualmente da concessão de cidadania, desde que eles atendam a várias exigências como ter trabalho, aprender inglês, não possuir antecedentes criminais e pagar impostos retroativamente. O comitê também votou pela criação de um vasto programa de trabalho temporário. A votação foi de 12 a 6, com quatro senadores da maioria republicana cerrando fileiras com os democratas.Mobilização Esta foi a parte fácil para o lobby pró-imigração. A votação aconteceu em meio à espetacular mobilização dos setores pró-imigração, evidenciada pela marcha de 500 mil pessoas em Los Angeles no sábado. Mas a passagem da medida no comitê do Senado, que em abril será votada no plenário, agora deverá mobilizar os oponentes da imigração, interessados basicamente na repressão dos ilegais e reforço das medidas de prevenção na fronteira com o México. E qualquer legislação no Senado precisará ser reconciliada com o projeto aprovado na Câmara dos Deputados, que exige a construção de uma cerca na fronteira e criminaliza os ilegais no país. A liderança republicana na Câmara já antecipou que não topará nenhuma lei que inclua programas de trabalho temporário ou suavização do status dos ilegais já no país.É um quadro muito complexo, mas em termos simplistas as visões sobre imigração podem ser divididas em dois campos. De um lado, está o lobby da lei e ordem, integrado em geral por republicanos conservadores. Do outro, setores empresariais, que conhecem o valor da mão-de-obra barata representada por imigrantes, a maioria do Partido Democrata e muitos republicanos, inclusive o presidente Bush.Embora também apóie mais rigor na repressão fronteiriça, este setor insiste que é preciso levar em conta que imigrantes ilegais vão continuar chegando, não podem viver nas sombras e são necessários para a economia.Idealismo Há também um componente idealista, ou seja, da tradição americana, de acolher levas de estrangeiros. Como disse Bush na segunda-feira, "cada geração de imigrantes renova nosso caráter nacional e acrescenta vitalidade à nossa cultura".São nobres ideais, mas a tradição americana a rigor é mais ambivalente. Ela alterna generosidade com hostilidade em relação aos imigrantes. E hoje os republicanos da escola lei e ordem estão mais afinados do que Bush com os sentimentos populares. Uma recente pesquisa TVNBC/ Wall Street Journal revela que 59% dos americanos se opõem a um programa de trabalho temporário para imigrantes e 71% se dizem mais inclinados a votar em políticos a favor de mais repressão na fronteira.Há, portanto, múltiplos desafios políticos e eleitorais na questão. O próprio presidente Bush deflagrou o debate sobre reforma da imigração, calculando que a postura "generosa" aumentaria a fatia do voto hispânico para os republicanos, que de fato começou a migrar dos democratas nas últimas eleições presidenciais. Já os democratas estimam que as divisões republicanas e o sentimento hostil em relação aos imigrantes irão conter ou mesmo reverter esta perda do voto latino. Em contrapartida, há o bloco cada vez mais poderoso dos setores ressentidos com os imigrantes. Neste malabarismo, o equilibrista na corda mais bamba é George W. Bush.

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