Politização da criminalidade amplia situação de insegurança na Venezuela

Alarme. Dos 15 planos de segurança anunciados pelo governo de Hugo Chávez nenhum deu resultado e o número de homicídios no país passou de pouco mais de 4 mil, em 1999, para mais de 16 mil em 2009;

Talita Eredia, O Estado de S.Paulo

20 de agosto de 2010 | 00h00

Violência. Cartaz na favela do Petare, em Caracas, alerta para a lei de desarmamento: sem cifras oficiais desde 2003    

 

 

 

 

Apesar de mais de 40% da sociedade venezuelana considerar a segurança pública a principal preocupação, o governo a ignora, segundo analistas. Para eles a administração chavista insiste que a melhor forma de combater a criminalidade é a prevenção, reduzindo a pobreza. Essa falta de vontade política de Hugo Chávez em dar prioridade ao combate ao crime converteu a Venezuela num país recordista de homicídios e impunidade.

A situação é tida por especialistas como um dos pontos fracos dos partidários de Chávez, que enfrentam cruciais eleições legislativas em 26 de setembro. O cenário se complica pelo fato de pelo menos 20% da polícia estar envolvida em crimes, de acordo com investigações extraoficiais. E as políticas de luta contra a pobreza não se refletiram na violência, como afirma o governo. Dos mais de 15 programas de segurança executados pelo governo, nenhum deu resultado. O número de homicídios no país quadruplicou desde 1999, além de a Venezuela ter uma das taxas de sequestro mais altas do mundo. "Para muitos dirigentes do governo, violência não é problema, mas parte da revolução em forma de luta de classes", afirmou ao Estado, por telefone, Roberto Briceño León, diretor do Observatório Venezuelano de Violência - um centro de estudos ligado à Universidade Central da Venezuela (UCV).

O diretor da ONG Paz Ativa, Luis Cedeño, ressalta que o governo não divulga cifras oficiais sobre a violência desde 2003, e essa é uma tática para não admitir a existência do problema. Os levantamentos sobre número de vítimas são feitos por organizações não-governamentais. Segundo esses grupos, 16 mil pessoas foram assassinadas em 2009 na Venezuela. No primeiro semestre deste ano, mais de 5 mil pessoas foram mortas.

A ONU afirma que a taxa de homicídios no país é de 52 para cada 100 mil habitantes. No Brasil, a média é de 22. Na Colômbia, apesar do conflito interno, a taxa é de 38,8. A impunidade agrava as cifras venezuelanas. Dos cerca de 14.500 homicídios registrados em 2008, apenas 1.300 prisões foram realizadas.

A situação em Caracas é ainda mais grave. Segundo o jornal El Nacional, mais de 2 mil pessoas foram assassinadas entre janeiro e julho e a taxa se aproxima dos 140 assassinatos para cada 100 mil habitantes (em São Paulo, é de 11,2). Pelo menos 30% da população diz que já foi assaltada na cidade. O número de sequestros triplicou entre 2008 e 2009.

A Venezuela tem 150 corpos policiais. Em comum, apenas os baixos salários e os casos de corrupção. A maior parte dessas forças não trocam informações - principalmente as de áreas governistas e opositoras.

No ano passado, Chávez criou a Polícia Nacional Bolivariana, para atuar somente em Caracas. O diretor do Observatório Venezuelano de Violência, alerta para as consequências da politização da polícia.

"A partir do momento em que o presidente diz que a Polícia Nacional está a serviço do povo e não da burguesia, que é uma polícia anti-imperialista, a questão ganha um tom político - e a força não passa a imagem de que está a serviço de todos os venezuelanos", afirma Briceño.

Desde 2005, Chávez comprou mais de US$ 10 bilhões em armas de guerra, mas a polícia segue mal-equipada e sem treinamento. O excesso de armas em mãos de civis é um fator associado à altos índices de violência. O país tem 6 milhões de armas circulando legalmente pela sociedade e um número estimado de 4,5 milhões delas em situação ilegal. A proliferação deve-se principalmente ao pouco rigoroso controle do Estado sobre a venda e posse de armas.

Assassinatos

140 por 100 mil habitantes é a taxa de homicídios de Caracas, uma das cidades mais violentas do continente

PONTOS FRACOS

Polícia fragmentada

Mais de 150 corpos militares fazem a segurança em níveis municipais, estaduais e

nacional

Corrupção policial

Além dos casos de suborno, 20% dos policiais estão envolvidos em crimes que envolvem armas

Politização da polícia

Segundo Chávez, Polícia Nacional tem caráter anti-imperialista e está a serviço "do povo e não da burguesia"

Prioridade contra o inimigo externo Governo deixa de investir em equipamentos para a polícia e gasta seu orçamento com armamentos bélicos

Excesso de armas

País tem 6 milhões de armas de fogo legais e 4,5 milhões em situação ilegal

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