Polos de oposição a Evo perderão representação

Governo boliviano enfrenta protestos por usar dados do censo de 2012 que devem reduzir número de parlamentares de Chuquisaca, Beni e Potosí

GUILHERME RUSSO, O Estado de S.Paulo

03 de outubro de 2013 | 02h08

Inconformadas com o resultado do mais recente censo feito na Bolívia, que indica diminuição na população dos Departamentos (Estados) de Chuquisaca, Beni e Potosí - o que acarreta, segundo a legislação eleitoral do país, a perda de assentos parlamentares das regiões -, entidades sociais, sindicais e políticas de oposição ao governo de Evo Morales começaram a se manifestar ontem.

Os trabalhadores de Beni e Potosí - onde, segundo analistas, o presidente boliviano tem perdido apoio popular - suspenderam suas atividades, em uma "paralisação cívica" de 24 horas. Na capital de Chuquisaca, Sucre, milhares de pessoas protestaram diante do Tribunal Supremo Eleitoral, que, com base no censo, recomendou a alteração no número de legisladores dos departamentos.

Os manifestantes alegam que o governo boliviano manipulou o resultado do censo com a intenção de diminuir a representação parlamentar das regiões, que podem perder, no total, três assentos na Câmara dos Deputados, caso a medida seja aprovada pelo plenário da Assembleia Legislativa.

O cientista político Carlos Cordero, professor da Universidade Maior de San Andrés e da Universidade Católica Boliviana, explicou ao Estado que a insatisfação ocorre primeiramente porque, no início do ano, Evo anunciou resultados preliminares do censo que não corresponderam aos números oficiais divulgados pelo Instituto Nacional de Estatística da Bolívia no fim de julho.

"O país inteiro suspeita que houve manipulação dos dados. O governo não conseguiu explicar adequadamente o motivo da discrepância", disse. Cordero afirmou que a aprovação da mudança "vai depender da lealdade dos deputados governistas que representam os departamentos afetados" - que, segundo o analista, temem as consequências que enfrentarão em suas regiões caso apoiem o governo nesse assunto.

A previsão é a de que a Assembleia vote a medida entre o fim desta semana e o início da próxima. Além de alterar a representação parlamentar de cada departamento boliviano, o censo determina ainda a distribuição dos gastos do governo central em cada região.

Segundo Cordero, La Paz "acha que os conflitos vão se apaziguar e finalmente (os movimentos opositores) aceitarão". "Mas talvez o governo não esteja avaliando bem a intensidade desse mal-estar e a capacidade de mobilização", disse.

"A paralisação cívica foi contundente. Potosí parou totalmente", afirmou Johnny Llalli, presidente do Comitê Cívico de Potosí, explicando que a manifestação no departamento ocorre também porque La Paz não cumpriu as promessas que fez para pôr fim a uma greve que paralisou a região mineradora por 19 dias em 2010 - entre elas, a construção de uma fábrica de cimento e um aeroporto internacional. O governo nega ter abandonado a região.

Para o deputado opositor Mezoth Shriqui, que representa Beni pela Convergência Nacional, o governo boliviano tenta uma "manobra política" para manter sua maioria na Câmara, apesar da perda de popularidade. "O presidente está perdendo a confiança da população nessas regiões. Por isso quer manipular os assentos", afirmou o parlamentar.

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